[CAPA] O CHORO Por ALEXANDRE GONÇALVES PINTO - -1936 -- – 2 – O Chôro REMINISCENCIAS DOS CHORÕES ANTIGOS POR Alexandre Gonçalves Pinto Contendo: O perfil de todos os chorões da velha guarda, e grande parte dos chorões d’agora, factos e costumes dos antigos pagodes, este livro faz reviver grandes artistas musicistas que estavam no esquecimento. RIO DE JANEIRO 1936 RREÇO 4$000 Tiragem 1ª edição 10.000 Exemplares – 3 – Carta do maior cantor e poeta de todos os tempos Catullo Cearense, ao autor deste livro. ALEXANDRE O prefacio que me pediste para o teu livro, fica para outra vez. Não te posso ser util nas correcções dos erros, porque só uma revisão geral poderia melhoral-o, o que é impossivel, depois de o teres quase prompto. O leitor, porém, se deliciará com a sua leitura, fechando os olhos aos desmantelos grammaticaes, revivendo comtigo a historias desses chorões, que te ficarão devendo eternamente o serviço que lhes prestas, arrancando-os do esquecimento. Só mesmo tu, com o teu grande coração, serias capaz de uma obra tão saudosa para os que, como eu, viveram naqueles tempos de immarcesciveis recordações. Se, como penso, este livro tiver o acolhimento que merece, para fazeres uma segunda edição, prometto-te corrigil-o com muito carinho, auxiliando-te no que puder, para que a lista completa dos antigos e afamados chorões, resuscitados por ti com boas gargalhadas e lagrimas sentidas, pois é uma ineffavel satisfação percorrer todas as “sepulturas” deste cemitério de vivos na nossa memória. Pedes-me uma poesia para a abertura ? Envio-te esta, "O Passado", que vem a calhar. E, para terminar, recebe o abraço do amigo velho, que não se cansará de felicitar-te pela lembrança feliz deste formoso, carinhoso e saudoso breviario dos dias da nossa festiva, alegre e rumorosa mocidade. CATULLO CEARENSE. Rio, 28/10/935. – 4 – O PASSADO (De CATULLO CEARENSE) Quantas vezes eu não digo ao meu Passado, esse amigo que me alenta no soffrer : - "Acorda, tem paciencia ! Anda conversar commigo, e perdôa a impertinencia de tanto te aborrecer!" E o pobre velho, coitado, Mal dormido e já cansado de tanto e tanto o chamar, levanta-se, bocejando, e vem a mim, caminhando passo a passo, a me fitar ! Ao meu convite assentindo, penteando os cabellos brancos e as barbas brancas... sorrindo; jovialmente se vestindo com as suas vestes de côres; deitando o barco no rio, cujas margens reverdecem com seus antigos verdores; accendendo as luminarias, as multifarias lanternas de luzes multicolores; offerecendo-me a taça de seus magicos licôres, licôres que fez das lagrimas de nossos velhos amôres; e, por fim, saudando a lua, que em seus mágicos fulgores já tantas vezes saudou, – 5 – - o meu Passado, embarcando, soltando a vela e remando para a nascente do rio, que já tão longe ficou, - cantando, e, ás vezes, chorando, na viagem me vae mostrando, no proprio espelho das aguas, os meus prazeres e maguas, tudo quanto já passou ! Mas basta um leve arrepio no liso espelho do rio, quebrando, instantaneamente, todo o encanto da visão, para eu vêr, desilludido, que tudo é um sonho perdido, um sonho só, reflectido, não no espelho da corrente, mas no crystal transparente da minha imaginação !! Pois só assim é que eu vejo que o barqueiro, o velho amigo, que vae cantando commigo, revivendo o tempo antigo, que o Tempo já devorou, é um homem transfigurado, é um morto resuscitado, é o cadaver do Passado, que inda depois de morrer, ao menos, pela memoria, concede-me a excelsa gloria, - a gloria de reviver! CATULLO CEARENSE. – 6 – PERFIL DO ANIMAL Alto, já bem grisalho e urucungado, Physionomia alegre, e sempre brincalhão; E' sincero e leal, e por todos estimado, Governa a sua vida, com o proprio coração. Bom chefe de familia, funccionario honrado Tocador de Cavaquinho, e cuéra Violão: Ser politico sempre foi seu maior predicado E por varias vezes já tem sido pistolão. Tendo o dom da palavra é intelligente, Anda sempre sem dinheiro mas... contente... P'ra comer e beber é grande General, Conhecedor de toda gyria da cidade E' o prototypo extremo da bondade: Eis aqui traçado o perfil do "ANIMAL". MAX-MAR – 7 – [IMAGEM: FOTOGRAFIA DO AUTOR] ALEXANDRE GONÇALVES PINTO, autor destas reminiscencias do Chôro Antigo – 8 – PERFIL DOS CHORÕES Conjuncto de flautas maviosas, Chorões de cavaquinhos e violões ! Tereis neste livro as vossas rosas E do antigo tempo: as tradições. Pistonistas soberbos; Clarinetistas Ides todos ter aqui vossas acções; Descreverei com amor os bons artistas E tudo o mais que nos traz recordações. Grandes astros fulgentes se sumiram, Rebrilharam nos antigos ambientes, E as alegrias comnosco repartiram Evocando melodias refulgentes. Em cada chorão, findou-se um baluarte, Que deixou em nosso peito uma saudade, Que a germinar, corróe por toda a parte Desde o momento que subiram a eternidade. Musica, costumes, emfim todo o prazer Que floresceu na passada geração, Nas paginas deste livro hão de ter Toda a altivez da grande inspiração. Vou tentar reviver celebridades, Fazer dos bons artistas allusões, Distinguindo em cada um a qualidade E demonstrando o perfil dos bons chorões. MAX-MAR – 9 – O C H Ô R O PREFACIO Ao dar publicidade a um livro encontramo-nos sempre na duvida de um facto auspicioso para os leitores, emfim cada um escreve o que póde ou o que sabe. Estas linhas não tem a pretenção de mostrar erudição nem é commercial nem expositiva; é tão simplesmente em linguagem dispretenciosa, ao alcance de todas as intelligencias, assim como da pessôa que escreveu que communga no mesmo credo, escrevendo de bôa fé, se sentindo num ambiente agradavel, expontaneo, não tendo ao menos a intenção de instruir, quer seja para o bem ou para o mal. Factos occoridos de 1870 para cá. São chronicas do que se respirava no Rio de Janeiro neste periodo desde o tempo do João Minhoca, da Lanterna Magica do Chafariz do Lagarto, dos Guardas Urbanos, dos pédrestes até hoje, com as policias mais adeantadas actualmente, o autor só teve por fito recordar, que é um novo sentir e tornar a viver conforme a phrase do poeta, trazendo ao scenario do ambiente actual a comparação do que foi e do que é actualmente, a Maria Cachucha, Moquécas Bahianas e os Trinta Botões do theatro antigo até a Cidade Maravilhosa de hoje, assim como são comparadas as religiões, as sciencias e o credo politico; são comparados os costumes na vida dos pobres de accôrdo com a evolução, tivemos por tradição os – 10 – costumes bahianos que foram trazidos da Africa pelos nossos queridos antepassados e firmaram os costumes no Brasil, naquilo que é nosso e que aqui guardamos com a maior veneração dentro de nossos corações. Contam numa lenda que em uma região onde haviam innumeras Igrejas, onde os sinos plangentes annunciavam as grandes matinas e as festas religiosas com rituaes ou profanas, uma igreja foi soterrada, destruida por um terremoto. E as pessôas que sobreviveram áquelle cataclysma ainda tinham a impressão nos ouvidos das notas plangentes dos sinos daquella cidade. Assim agora as pessôas daquelles tempos no Rio de Janeiro recordam-se e sente n'alma a vibração das musicas daquella época: os chorões do luar, os bailes das casas de familias, aquellas festas simples onde imperavam a sinceridade, a alegria expontanea, a hospitalidade, a communhão de idéas e a uniformidade de vida ! As noites estrelladas e frias de Santo Antonio, São João, São Pedro e Sant'Anna, embora com os explendores da actualidade, não tem a graça natural da simplicidade daquellas reuniões onde os chorões da velha guarda expandiam-se em inspirações musicaes, dando e trecalando o perfume da recordação dos apaixonados daquelles tempos e que faço reviver nos corações dos leitores deste livro. E assim agradecendo a aceitação dos apreciadores de musica, entôo um hymno em louvor e reminiscencia dos chorões da velha guarda. OS CHÔROS Quem não conhece este nome ? Só mesmo quem nunca deu naqueles tempos uma festa em casa. Hoje ainda este nome não perdeu de todo o seu prestigio, apesar de os chôros de hoje não serem como os de antigamente, pois os verdadeiros choros eram constituidos de flauta, violões e cavaquinhos, entrando muitas vezes o sempre lembrado ophicleide e trombone, o que constituia o verdadeiro chôro dos antigos chorões. Naquelles tempos existiam excellentes musicos, que ainda hoje são citados como os cometas que passam de cem em cem annos ! CALLADO Callado foi um flauta de primeira grandeza, e ainda hoje é lembrado e chorado pelos musicos desta época, pois as suas composições musicaes nuncam perdem o seu valor, na sua flauta, quando em bailes, serenatas (que eram feitas em plena rua pois naquelle tempo eram permittidas não havendo intervenção da policia). Callado, tornou-se um Deus para todos que tinham felicidade de ouvil-o. – 12 – Os acompanhamentos eram violão, cavaquinho, ophicleide, bombardão, instrumentos estes que naquella época faziam pulsar os corações dos chorões, quando eram manejados pelos batutas da velha guarda, como sejam: Silveira, Viriato, Luizinho, etc. Callado e Viriato foram tão amigos em vida como na morte, e assim comprehendendo os musicos daquella época organizaram um festival e com o produ- [012] cto do mesmo mandaram construir um mosoléu do lado direito do Cemiterio de São Francisco Xavier, onde se acham os dois juntinhos dormindo o sonho da eternidade, dando assim uma recordação perpetua aos chorões de agora, que ao passarem n'aquelle mosoléu curvam-se respeitosamente em homenagem áquellas duas entidades, que as actuaes gerações ainda não deram iguaes. Contavam alguns daquelles tempos que tambem já dormem o somno dos justos, que Callado foi chamado para um concerto num dos theatros desta cidade ao qual compareceu com a sua flauta maravilhosa, mas o grande musico deixando a sua flauta deitada na estante um official do mesmo officio, desaparafusou uma das chaves de seu instrumento sem que elle percebesse afim de quando fossse tocar a mesma pular, e Callado fazer um grande fiasco, mas o seu intento não deu o resultado esperado, pois apesar da chave ter sahido fóra do logar, Callado, a força de beiço tocou toda a partitura sem perturbar-se, sendo muito abraçado e cumprimentado por aquelles que souberam do facto, estando neste meio o velho Imperador que condecorou com – 13 – o titulo de Commendador. Callado não era só músico para tocar de primeira vista, como tambem para compôr qualquer chôro de improviso, quantas vezes achava-se tocando em um baile de casamento, baptizado, anniversario ou outra qualquer reunião e se nesta occasião qualquer dama ou cavalheiro pedisse para escrever um chôro em homenagem ao festejado, Callado, não dizia que não, passava a mão em qualquer papel quando não trazia o proprio, riscava a lapis e zaz ! punha-se a escrever, dahi a momento entre gava a um chorão presente que executandoa tornava-se um delirio para todos os convivas pela clareza e pela linda inspiração da mesma. Callado foi o rei da musica daquelle tempo. BUMBA MEU BOI Tambem foram grandes flautas nesta época os irmãos Marreco e Jorge, que faziam suas serenatas em São Christovão quasi sempre na Quinta Imperial, em casa de Maria Prata, que dava pagodes quasi todas as semanas alegrando os seus habitantes com os chôros moles deste tempo. [013] Estes afamados flautas eram tambem frequentadores da casa do sempre chorado Dr. Mello Moraes Filho, que todos os annos organizava a tradicional festa do Bumba meu Boi, com as visitas em casa de seus amigos e com especialidade em casa do grande brasileiro que foi o Visconde de Ouro Preto. O escriptor deste livro chorão neste tempo de violão e cavaquinho, lembras-se que quasi numa das ultimas festas do Bumba meu Boi, onde se achava o grandioso e celebre violão Candinho Ramos, compadre e – 14 – dedicado amigo de Mello Moraes, precisando um homem de confiança para sahir no boi, o Dr. Mello consultou a Candinho muito meu amigo e até compadre, o qual perguntou-me se eu queria sahir no boi, que gostosamente aceitei, elle então me fez vêr que o meu antecessor já tinha escangalhado um boi, e que o mesmo carecia de cuidados pois custava muito dinheiro, respondendo eu: não tenho receio pois sempre fui cuidadoso em tudo que assumo responsabilidade ! Candinho, radiante com a minha affirmativa, apresentou-me ao Dr. Mello Moraes, como o homem escolhido para sahir no boi, ficando combinado logo a estréa para o dia seguinte, na hora regimental lá estava eu firme para assumir o compromisso. Entrei todo satisfeito no celeberrimo boi andando pelas ruas de São Christovão em visita aos amigos do Dr. Mello Moraes, finalizando a jornada na bella vivenda do saudoso Visconde de Ouro Preto, na rua 8 de Dezembro em Mangueira, mas o caso interessante é que se meu antecessor foi pessimo boi eu ainda fui peior ! pois ia pelas ruas afóra convencido mesmo que era um boi de verdade bravo, pulando, dando marradas a torto e a direito em todas as pessôas que passavam e nas que faziam parte da comitiva, de forma que quando cheguei em casa do inesquecivel Visconde de Ouro Preto, o boi estava em petição de miseria com o carão todo esfacelado com um chifre só e os pannos dos lados tinham ficado pelas ruas ! Candinho, quando reparou o estado do bicho, botou as mãos na cabeça me dizendo: compadre você me collocou mal com o compadre Mello Moraes ! respondendo eu, na maior calma deste mundo: pois não foi para dar marradas que eu sahi no boi ? respondendo Candinho: eu – 15 – quando te indiquei para sahires no boi, julguei mais cuidado de [014] sua parte, então desculpei-me da seguinte forma: Nesta noite cahia uma chuvinha miu'da e tinha sido a causadora do boi ter ficado naquelle estado mais depressa ! eu, então antes de entrar na linda vivenda de Ouro Preto, pendurei o animal pelo queixo em uma das janellas da sala onde se achavam os componentes da festa. Reparando o Visconde de Ouro Preto, com o carão do bicho na janella e olhando para a sala bem iluminada perguntoume o que era aquillo, respondendo eu com a maior ingenuidade: Este boi me tem muita amizade, e não me vendo veio parra janella me espiar ! Então o Visconde dando um ar de riso, retirou-se para junto de seus convidados. Façam os leitores uma idéia em que situação eu me achava perante o Candinho e o Dr. Mello Moraes ! De volta chegando á casa do Dr. Mello Moraes, muito sorrateiramente arriei o animal sem que ninguém percebesse e chispei para casa afim de organizar desculpas para dar no dia seguinte ao compadre Candinho Ramos, que trabalhava na 2.ª secção dos correios, pois eramos carteiros. Depois de ter assignado o ponto, chegou o Candinho, de cara amarrada cumprimentando-me muito secco e depois chamoume para a "9.ª secção", que era um botequim que ainda hoje existe nos fundos do correio onde se faziam reuniões e muitas vezes tratava-se de interesses postaes. Sentamo-nos em uma das mesas e Candinho mandou vir dois cafés, e foi logo se desabafando: - Compadre, muito obrigado pelo modo com que você correspondeu á minha confiança – 16 – ! O compadre Mello Moraes, ficou bastante aborrecido não só commigo como tambem com você, eu por ter apresentado como pessôa de minha amizade e a você por ter espatifado o animal ! Foi preciso mandar fazer um boi novo para continuarmos os festejos do Bumba meu Boi ! Esta vae me servir de emenda, nunca mais compadre, indicarei ninguem para sahir no boi, porque se forem todos como o compadre, que julgava ser um boi de carne e osso em vez de se mandar fazer um boi, era preciso um para cada sahida !... Eu muito maneirosamente respondilhe que o boi era feito para se escangalhar, pois como sabes, dando cabeçadas, couces etc., o bicho tinha que virar frangalho ! Candinho não accei- [015] tou as minhas desculpas tornando-se serio commigo que felizmente durou pouco, eu fiquei muito envergonhado ausentando-me da casa do Dr. Mello Moraes, ficando assim privado de tomar parte de suas festas, apesar de saber que o Dr. Mello Moraes não guardava rancor, pois aquelle acontecimento era effeito da mocidade. As festas do Bumba meu Boi desappareceram com a morte do grande escriptor e inesquecivel poeta Dr. Mello Moraes, pois era o unico que conservava as tradições de todas estas festas antigas. Estas festas faziam o encanto do bairro de São Christovão, e ainda hoje, está na lembrança das antigas familias e dos grandes chorões da velha guarda. Lembrando-me destes bons tempos as lagrimas me vem aos olhos, e as saudades invadem meu coração por estas tradições que os annos não trazem mais. Vamos relembrar ainda de – 17 – mais alguns flautistas que tiveram sua grande época, alguns ainda vivem, outros já se forma para o além deixando melodiosas producções musicaes, o que fazem recordar em todos os bons choros pelas pessôas que tiveram a felicidade de privarem com os mesmos. Na proporção que vou lembrando é muito difficultoso citar todos, pois o numero é grande e já pela minha idade ser difficil possuir a mesma memoria de 40 annos passados. SALVADOR MARINS Era carteiro de primeira classe, infelizmente tambem já dorme o somno dos justos, apesar de não ser um grande flautista, tocava seu pedaço com correcção, não se negando a convites, mas perguntava logo se tinha "pirão", nome que se dava nos "pagodes", quando tinha bôa mesa e bebidas com fartura. Quando ia tocar num baile, vendo tudo triste sem aquelle alento dos grandes "pagodes" chamava um collega e dizia: Está me parecendo que aqui o gato está dormindo no fogão. E depois arranjava um motivo, procurava o dono da casa e pedia para ir ao quintal afim de passar pela cozinha e ver a fartura ou a miseria em que se achava o dono da festa, vendo fartura vinha para a sala todo satisfeito, em caso contrario dizia: O gato está no fogão rapaziada, vamos sahindo de barriga. Não viemos aqui para passar "gin- [016] ja" (que quer dizer fome). Dahi a pouco vinha o dono da casa ou pessôa da familia pedir que tocasse um pouco, Salvador, endireitava os oculos cujos vidros tinha uma grossura enorme, pois era myope de verdade e respondia logo: sinto muito não poder tocar, pois estou atacado de terrivel dôr de – 18 – cabeça, era esta a evasiva para cahir fóra do baile que não tinha "pirão", então as pessôas da casa penalizadas, offereciam um comprimido qualquer para estancar o mal, mas elle, recusava declarando que soffria do coração e que a reacção do medicamento podia lhe ser fatal e arribava do pagode carregando todos os acompanhadores, despedindo- se da familia iamos para fóra fazendo commentarios do sucedido, Marins, em grandes gargalhadas e verve, provocava tambem aos companheiros grande ataque de riso pois o Marins, era deveras engraçado. Assim findou-se o heroe do chôro, deixando muitas saudades aos seus companheiros de repartição e amigos e admiradores que possuia aos punhados em Botafogo onde sempre morou e morreu. CARLOS FURTADO Era um hábil chorão, tocava flauta com certa perfeição, era especialista nas musicas de Callado, Silveira, Luizinho e do trombonista Candinho Silva, cujas composições acham-se no caderno de muitos flautistas da actualidade, nenhum dos antigos musicos escreveu tanta quantidade de chôros como Candinho Silva tem escripto, é admiravel em suas composições pois não só escreve com difficuldades para os tocadores batutas, como também para os fraquinhos. Candinho toca trombone como poucos, é um verdadeiro maestro no instrumento, suas composições são de uma belleza de arte e de gosto. Em meu poder tenho grande quantidade das mesmas que guardo com todo carinho como uma joia de alto valor. Carlos Furtado, fazia um encanto nos salões quando tocava o seu instrumento, e era sempre encontrado no bairro de Villa Isabel em companhia quasi sempre do grande musico a quem peço licença para trazer – 19 – seu nome, o illustrado e humanitario medico Dr. Francisco Magalhães, e de seu sempre chorado irmão e também grande violão Ernesto Magalhães, já fallecido. Furtado, abandonando a flauta, dedicou-se ao trombone tendo como mestre Candinho Sil- [017] va, tornando-se um trombonista respeitado, dando com isso grande prazer ao seu mestre. O autor destas linhas acompanhou a vida de Furtado, até os seus ultimos dias. Indo certa vez em sua residencia em companhia de Ernesto Magalhães e Billot, já tambem fallecidos, encontrou elle muito abatido, quasi não podendo falar, então por gracejo lhe disse: Viemos te buscar pois temos um pagode puxado a "Qui-Qui" (porco), elle com um pequeno riso nos labios, nada respondeu, este riso era já advinhando a sua partida para o além, onde com Santa Cecilia ia tocar os hymnos santos do céo ! Morreu de uma tuberculose deixando um vacuo triste e difficultoso de ser preecnhido. MANOEL TEIXEIRA (Cupido) Foi um chorão de facto. A sua flauta em seus labios parecia até o canto de um sabiá, tocava nos bailes, em reuniões e até muitas serenatas fizemos, e a todos deliciava. Cupido era filho de um velho tocador de violão já fallecido, chamado, se não me falha a memoria, Vito. Naquelle tempo morava em uma pequena avenida na entrada da rua de São Christovão, do lado direito, da entrada do Estacio, antigo Mata Porcos. Conheci-o de menino como tambem eu o era, brincamos juntos e soltar papagaios lá pelas bandas da chacara do Céo, no cimo do Morro de São Carlos, onde – 20 – tambem comiamos os cajás azedos que existiam naquelle tempo em abundancia. Cupido foi um chorão que deixou saudades. GEDEÃO Sublime artista musical tambem executor eximio do chôro, possuia em seu caderno de musica composições de diversos flautistas, que tambem já se foram e de seus contemporaneos. Morava numa pequena casa na rua Machado Coelho perto do Estacio, esta casa era a reunião dos chorões, sendo por tanto uma grande escola de musicistas, onde o autor deste livro ia alli beber naquella fonte sua aprendizagem de Violão e Cavaquinho. ARTHUR FLUMINENSE De saudosa memoria foi carteiro, flautista dos bons. Dizia o [018] que sentia em seu instrumento. Apesar de não o ter conhecido pessoalmente pude pegar algumas pequenas informações, sabendo que elle privou com os grandes flautas da antiguidade; sua morte causou grande claro entre seus amigos daquella época. LEOPOLDO PE' DE MEZA Tocava pouco, morava no Morro do Pinto, não era musico de assombro, mas servia para "encher tripa" na falta dos grandes chorões; pois com a sua flauta de cinco chaves já muito velha, presa com elasticos tocava só musicas faceis, lá uma ou outra mais difficil, emfim sempre arremediava, nos bailes onde tocava, comia como gente grande, e bebia melhor. Gostava de uma abrideira antes de entrar nos pirões, e depois se atolava na cerveja, no vinho ou em – 21 – qualquer outras bebidas que viesse, era dos taes que cada vez que chimpava um "gole"da bôa estalava a lingua, e quando numa meza via um Qui-Qui (porco) com a competente batata na bocca e azeitona nos olhos, não tinha mais vontade de levantar-se, e quando isso fazia ia dizendo: hoje comi para um mez, estou empanturrado, já não posso mais. Se pela madrugada vinha um chocolate com biscoitos não regeitava a parada e tomava mais de uma chicara. Não quero dizer com isso que todos os musicos fossem assim, como elle, mas gostavam de comer bem e se assim não fosse tratavam de dar o fóra deixando os convidados a vêr navios. Julgo que elle já deu contas a Deus, pelo muito que comeu e bebeu neste planeta. CARLOS ESPINDOLA Foi um grande amigo e chorão, executor de flauta com grande perfeição, pae da grande artista Aracy Córtes, luminosa estrella theatral no nosso amado Brasil, que tantas glorias, bellezas e applausos tem feito na nossa capital e tambem retumbante successo no estrangeiro. Fui amigo intimo de seu pae, conheci-o ainda solteiro quando frequentavamos bons e maus bailes na Tijuca, Andarahy, Villa Isabel, Mattoso, Itapagipe e muitos outros lugares desta capital, alguns pagodes que estavam acostumados a receber os musicos a café e cachaça, festas estas que Espindola, ia me dizendo vamos dar o fóra pois não estou acos- [019] tumado a passar a "Pirão de Areia secca" e "Pirão de Bagre", que significava não haver uma bella ceia regada com o competente vinho; então respondia eu vamos sahir de barriga pois ella esta dando – 22 – horas. Saindo deste pagode hiamos para qualquer botequim, mandavamos vir uma porção de mortadella, pão e vinho e assim faziamos um bello repasto, sahiamos dalli mais ou menos forrados, caminhavamos pela rua afóra rindo e commentando o baile. Espindola, comia bem e antes de tocar flauta já era grande frequentador de pagodes, pois conhecendo muitos tocadores de chôro escorregava nas aguas delles. Dahi parte o conhecimento delle com o inesquecivel professor João Salgado, também de saudosa memoria. Nesse tempo metteuse na cabeça de Espindola, aprender a tocar flauta, o que conseguiu comprando uma de novo systema convidando João Salgado para seu professor que promptamente aquieceu. João Salgado que era um professor de grande merito e paciencia para ensinar a mais rude cabeça foi aos poucos ensinando a Espindola, que com a vontade que tinha de aprender foi depressa, pois em poucos tempos tornou-se um flautista respeitado nas rodas dos tocadores, impondo-se á admiração de todos que o conheciam e tambem deste que estas linhas escreve, que muito o apreciava. Morreu muito moço ainda e, se vivesse, hoje seria a gloria dos grandes chorões com a sua maviosa flauta. Falleceu á rua Barão de Ubá, e o autor destas linhas acompanhou o seu enterramento ao Cemiterio de São Francisco Xavier. Occupava elle, o cargo de feitor de turma da Prefeitura. Não sei de certo, se a sua viuva ainda existe, o que faço votos que sim, pois, quando carteiro que fazia entrega na rua do Lavradio encontrei- a, uma occasião, morando no Hotel Nacional. Palestramos um pouco, finalizando a nossa conversa sobre a vida do seu saudoso esposo. A sua dilecta filha Aracy Córtes, um dos astros que circula em nosso – 23 – meio artistico homenageada pelos applausos dos seus admiradores, a vi muito creança. PEDRINHO Pedrinho, primoroso flautista de uma educação sublime. Esse instrumento nos seus labios, as féras amansavam-se e os passarinhos enebriavam-se, tal era a gravidade do seu sopro. Pedrinho, raras vezes dizia não, aos [020] seus camaradas fosse onde fosse, o chôro. Era operario da Fabrica de Tecidos de Villa Isabel, sendo assiduo no cumprimento dos seus deveres. Eram os seus acompanhadores, Candinho Trombone, Juca Russo Violão, filho do inesquecivel Juca Valle, um dos "predilectos" violonistas da turma de Callado, Viriato, Rangel e Silveira, Baziza Cavaquinho, Ismael Correia, Lequinho e muitos outros que me falha a memoria. Estes musicos tocavam na S. D. Carnavalesa Pragas do Egypto, que era o Presidente, o autor deste livro. Pedrinho morreu repentinamente, deixando em nossos corações a maior tristeza impossivel de descrever. CHIQUINHO Chiquinho Baptista, conhecio na Tijuca. Falleceu lá para as bandas do Jardim Botanico. Acompanhei-o muitas vezes com o meu vilão este chorão. Não era lá destes flautas de admirar, mas o pouco que tocava dizia com alma e bom gosto. Penso existir ainda a sua viuva e filhos no mesmo bairro em que morreu. Também dois chorões celebres que não posso deixar de mencionar que se chamavam em vida Edegar, e Henrique. Estes, eram dois flautas sublimes, pois, faziam encantos, não só nos – 24 – bailes como nos Theatros. Moravam lá para as bandas da Gavea. Ambos infelizmente já dormem o somno eterno. Outro companheiro, bom na flauta residente em Botafogo, e que tocou com maestria em diversos bailes onde era sempre o mais preferido, chamava-se Benedicto Bahia, pois, as suas musicas eram executadas com ternura e bom gosto. Hoje, pelos annos, elle um pouco retirado, e já cansado das luctas, mesmo assim, ainda muito instado demonstra o que foi. Eram os seus acompanhadores o Ademar Casaca, primoroso violão, admirado. Deixou o violão e toca actualmente Trombone com maestria, sendo um eximio professor. E o João Soares com o seu bandolim e cavaquinho ornamentava tambem a "troupe" de Bahia, digno de ser apreciado, executando as musicas de sua lavra. VIRIATO Inesquecivel musico de grande nomeada pelas suas producções admiraveis. Só aqui podemos descrever duas das suas producções "Macia", e "Só para [021] moer", musicas estas que nunca perderão o seu valor. Faço ponto aqui deste grande musico scientifico aos meus leitores, que se fosse fazer a apologia de Viriato e de outros musicistas de sua tempera seria necessario multiplicar as paginas deste livro. ZE' FLAUTA Como era conhecido, typo de gentilman, de uma educação finissima pois, morreu, quando devia viver. As suas composições são innumeras, que infelizmente não as possuo. CAPITÃO RANGEL – 25 – Musicista, autor de innumeras composições, como sejam: "Geralda", "Alice", "Futuro Risonho", "Ternura", "Não machuca a gente", "Amelia", "Vivi", "Olhos de Candinha", "Saudades de 1° de Agosto de 1888", "Você me prometteu", "Emilia" e "Sympathia"; não estando aqui descriptas nem a terça parte de suas musicas. Rangel foi um dos principes dos Chorões da Velha Guarda. GERALDO DOS SANTOS Immensuravel flauta, conhecido na roda dos chorões por "Bico de Ferro". Era conhecido pelos seresteiros da Cidade Nova pelo seu sopro, pois, quando tocava em qualquer festa era divulgado e conhecido pela melodia do seu instrumento, sendo por este modo acclamado e festejado. O seu pae, tinha por elle um grande devotamento e por esta razão o acompanhava para todos os chôros á guiza de um cicerone, apesar de ser elle de maior idade. Geraldo foi um eximio funccionario dos Correios, muito estimado pelos companheiros. Falleceu ha pouco deixando grandes saudades e inesqueciveis recordações a todos os Chorões. ALFREDO VIANNA Melodioso flauta que podia se comparar com os acima descriptos. Tocava de primeira vista, a principio, na sua flauta amarella, de cinco chaves e ultimamente em uma, de novo systema. Deixou elle um grande archivo de musicas antigas e modernas que deve achar-se em poder de seu filho Pixinguinha, maestro e talentoso flauta que repercutiu as nossas glorias musicaes [022] – 26 – no Estrangeiro, e que, deixo de innumeral-as pois, que o publico conhece-a todas não só pelo Radio, como tambem em muitas festas de Chôros que se exhibem nesta Cidade Maravilhosa onde é apreciado e ovacionado pela maneira admiravel com que sabe executar o que é nosso, quero dizer com isto que é um filho que sabe honrar a tradição de seu pae no circulos dos Chorões. CUPERTINO Grande maestro, flauta fluente e sonoroso "primus inter pares" entre seus componentes pelo gosto e modo de exprimir com sentimento as suas produções, e tambem as de Callado, Rangel, Viriato e de outros tantos por mim descriptos. Agora já se acha velho e retirado dos chôros, tendo se dedicado ao violino tornando-se um admirador de Paganini. Formou até uma sociedade de aprendizagem de musicos onde tem se aproveitado grande quantidade de moças e moços que já se acham diplomados pelo Instituto de Musica. Tem de sua lavra grande quantidade de chôros. Apesar de não vel-o ha muito tempo, acho que ainda vive para a felicidade dos seus innumeros alumnos e de seus amigos, que no rol d'elles se encontra o escriptor. FELISBERTO MARQUES Vou aqui descrever outro chorão da velha e nova guarda, já fallecido, Felisberto Marques, mais conhecido por Maçarico. Era um melodioso flauta de justo valor pela expressão com que executava suas admiraveis composições, pois Felisberto além de um bom executor, era um eximio professor de flauta. Ultimamente, já nos fins de sua gloriosa vida foi accommmettido de um subito mal que – 27 – com espanto de todos os seus admiradores, perdeu a embocadura, e nada mais pôde tocar. Eis as suas composições: "Suspiros d'Alma", "Tutú", "Os Deuses de Maricota" e muitas outras que não tenho no meu archivo musical. Anacleto de Medeiros considerava e venerava Felisberto, pela sua inteligência musical e seu fino trato. JUPIAÇARA Flauta de outros, e deste tempo para orgulho meu e de seus amigos. Ainda vive, apesar [023] dos seus janeiros ainda não deixa de ir ás festas, chôros e reuniões de amigos com a sua linda flauta toda de prata, fazenda as alegrias dos lares. Jupiaçara conheceu todos os chorões d'aquelle tempo que muito os aprecia e que ainda hoje tem grandes recordações. Conserva na sua linda vivenda os retratos de quasi todos os grandes flautistas acima mencionados, pois é uma reliquia que d'alli não se retira por modo algum. BACURY Tambem flauta respeitado da antiguidade, grande compositor de Chôros. Era Bacury, guarda-fiscal da Prefeitura, que já dorme o somno derradeiro ha mais de cincoenta annos, tendo as suas ricas producções cahido no esquecimento no correr de tantos annos. Elle privou com os antigos chorões do seu tempo, que tantos prodigios conquistaram. OSCAR CABRAL Morador lá para os lados do Suburbios, na Piedade. Poucos flautas tinham o gosto de Cabral. Não gostava de musicas extran– 28 – geiras pois sempre dizia que tinha verdadeira adoração pela nossa musica e tinha um archivo que, affirmo que muito poucos possuem não só em numeros como em belleza. Foi grande compositor cujas producções devem estar em poder da sua distincta familia. Morreu elle ha pouco mais de tres annos lá para os lados do suburbio, deixando muitas saudades aos seus amigos. BENEDICTO Benedicto, outro bom flauta, muito conhecido e amigo de Oscar Cabral, pois foi o encanto dentro da Cidade Nova e nos suburbios onde os bailes bons e pessimos eram aos borbotões. Infelizmente morreu moço, parecia aos seus amigos cheio de vida, e no entanto assim não foi. Escreveu algumas composições bôas, que deve estar por ahi desprezadas, e que talvez no caderno de Cabral, se ache algumas. [024] QUINTILIANO Quintiliano Pinto, irmão do escriptor, um dos velhos chorões e de nome na roda dos que tocavam ou não. Quando a nossa Mãe morreu, elle apaixonou-se tanto, que nunca tendo escripto qualquer musica, compoz uma valsa, bastante triste, que botou o nome de "Minha Mãe", porém apesar de não compor, tocava todas as musicas dos velhos e novos flautas ou de outro qualquer instrumento. Tocou em muitos bailes, serenatas e festas, e, tinha muito gosto pela musica, especializando-se das antigas do seu tempo. Só deixou a flauta, já bastante idoso, e pela molestia que aos poucos foi minando o seu organismo, sepultou-se no Cimeterio do Pichincha em Jacarépaguá proveniente de uma paralysia, e que hoje como seu – 29 – irmão, ainda choro, e lastimo a sua morte, pois sempre tocamos juntos, e muitos nos estimavamos. Paz á sua alma é o que peço a Deus como todos os seus companheiros que com elle dormem o somno da eternidade. VIDEIRA Videira, flautista e chorão de respeito também já descansado desta vida aos seus 35 annos mais ou menos. E' verdade que tocava de ouvido mas sabia dizer na flauta o que dizia aos outros, sabendo musica. Era muito respeitado, pelos acompanhadores, e tinha um defeito, se qualquer dos instrumentos désse uma nota fóra da musica, em qualquer passagem, parava a flauta, o que era uma decepção para os convidados, e então logo perguntava ao que errou. O senhor sabe tocar? o que respondia o interpellado, toco pouco, e a minha pratica é quasi nenhuma, e depois o senhor toca com muita difficuldade, o que muito nos atrapalha. Com esta franqueza Videira ficava radiante, e então ia logo dizendo: Agora eu vou tocar para o senhor não cahir. E perguntando então: Qual os tons que o senhor confere no seu instrumento ? o que respondia: Dó Maior, Sol Maior, Mi menor, e só. Respondeu Videira: pois bem, então vamos tocar só nestes tons e assim fazia, sahindo-se os fracos tocadores bem, e Videira, contentissimo demonstrando assim a sua Maestria, apesar de tocar de ouvido; e mesmo para não acabar com o baile. Vou contar um facto que deu-se commigo, e um meu grande amigo, tambem como eu farrista que [025] era conhecido por apellido Dinga, de saudosa memoria. Dinga convidou-me para tocarmos em – 30 – um anniversario e baptizado, lá pelas ruas de S. Diogo, hoje General Pedra. Quando lá chegamos, o flauta ainda não tinha chegado, indagando eu ao dono da casa quem era o flauta, que tinha de tocar me respondeu que era um seu amigo por nome Videira. Oh, decepção ! Um suor frio desceu-me por todo o corpo, parecia que ia ter uma syncope, pois sabia por informações, o ranzinza que elle era! pois sabia da decepção que ia passar e meus companheiros, pois os tons que sabia naquella occasião eram muito poucos, pois o que eu sabia era de principiante, que só servia para distrahir, e não para acompanhar. Pois bem: com o medo de tocar com Videira, eu e Dinga, arranjamos um pretexto para darmos o fóra. Quando estavamos quasi para retirar-nos, com medo que Vieira entrasse, surgiu Videira com a sua maviosa flauta em baixo do braço, e que muito sorridento nos comprimentou, satisfeito talvez, pensando que fossemos excelentes tocadores. E dizendo o dono da casa que iamos nos retirar, veio Videira ao nosso encontro dizendo: Eu peço aos senhores que não se retirem, pois desta forma ficará a festa toda estragada. Então eu, muito medroso e nervoso lhe disse, que fomos alli, só para cantar modinhas, dentro dos tons que nós conheciamos e não para acompanharmos flauta, pois faltava- nos a pratica. Videira dando uma gostosa gargalhada, abraçou- me e dizendo-me: menino não tenha medo, do pouco que você toca: pois eu tocarei tudo dentro das notas que conhece. E assim dizendo pegou-me pela mão, e a do Dinga, e disse: vamos lá dentro tomar uma bôa talagada. Nos que tambem gostavamos, acompanhamos com grande prazer. Ao chegar á sala de jantar, encontramos uma bella – 31 – mesa, cheia de assados, e as competentes garrafas de vinhos tintos, Porto, Cervejas e etc. Lá chegando, Videira mandou abrir uma garrafa de vinho do Porto, que naquelle tempo era bom e barato e enchendo os nossos copos que era dos grandes, nos entregou, que foi sorvido quasi de uma só vez. Videira quando sorveu o ultimo gole, deu um grande estalo com a [026] lingua, dizendo-nos: Que bôa talagada, pois desta existem poucas. E assim dentro dos tons que sabiamos, tocamos a noite inteira. De vez em quando Videira mandava vir mais outras talagadas, palavra muito em uso por elle. O dono da casa, logo que Videira pedia, nem suspirava, trazia logo sem pestanejar, outra garrafa, e enchia os copos, e zás bebiamos. Videira era intimo da familia. Lá pelas tantas da madrugada depois de muitos chôros tocar, puzemos a cantar modinhas, depois de um bello chocolate, feita a capricho o que foi uma delicia para nós. E assim soldamos os pulmões para poder contar modinhas muito em voga naquelles tempos. "Pallida madona." Eu sei que teus olhares são só delle, Virgem de louros cabellos, um dia louco, o que vale o fulgor de Oropé e muitas em que o escriptor destas paginas era um batuta pois possuia uma bella voz que encantava aos ouvintes, e sendo sempre muito applaudido. Finda a festa ao romper da manhã, despedimo-nos do dono da casa, e sua familia e mais convidados, que ficaram muito gratos, pela maneira alegre e ordem que reinou até ao findar da mesma. E assim eu o Dinga e Videira, fomos até o largo do Rocio Pequeno, hoje Praça 11 de Junho. Depois de muito commentarmos sobre a festa despedimo-nos – 32 – com bastante pezar, pela boa camaradagem que reinou. Então Videira offereceu-nos a sua casa, que era em uma pequena avenida na rua dos Invalidos, onde lá entregou sua alma a Deus, de uma intervenção cirurgica. Pois bem, daquelle dia em diante, comecei a procurar Videira, não só em sua casa, como em uma charutaria na rua do Ouvidor, onde elle trabalhava como cigarreiro. Andando sempre com elle principiei a tocar violão, e cavaquinho, pois elle os conhecia regularmente, e tornando- me desta forma um violão e cavaquinho respeitado na roda dos tocadores batutas, e assim acompanhei muitas quadrilhas como fosse: "Minha dôr, Ermelinda, Lucinda, Saudades do Engenho Velho, da Cidade Nova", e muitas outras como polkas, valsas, chotes, mazurkas, etc. tornando-me assim um bamba nos dois instrumentos de cordas de que fiz uso por muitos annos. Hoje ao peso da idade já cansado, obrigado sou a retirarme para a vida privada, tendo de- [027] pendurado nas paredes cheio de pó, e no esquecimento, o meu violão e cavaquinho, tão querido outr’ora, por ter sido os meus instrumentos que tanta fama me empolgou na minha mocidade, e dentro do meu cérebro as reminiscências descriptas neste livro, pobre de literatura, porém, rico de recordações. JOÃO DE BRITO João de Brito, flauta também de bom gosto. Chorão dos chorões, epigraphe esta, que espontaneamente, dou-lhe diante dos factos testemunhados por todos os musicistas, que andaram, privaram e tocaram, com elle. Personagem, que era um astro – 33 – que illuminou na sua trajectoria os lares ricos e pobres, daquelles tempos. Pois como elle na sua flauta magica só tocou Pan o Deus da natureza de que falla a mythologia. João de Brito era cigarreiro da fabrica Leite Alves, era um caboclo sympathico, attrahente, de maneiras francas, e positivas por isso tornava-se communicativo. Era demasiadamente apaixonado pelo chôro. Quando empunhava a flauta, entre seus acompanhadores, o enthusiasmo lhe supplantava, e elle se esquecia de tudo até de sua familia de quem era estremecidamente dedicado. Deixou diversas composições que infelizmente nenhuma possuo. João de Brito morreu. Vive, porém, nos corações de seus amigos que ainda hoje pranteiam a sua morte. JOÃO BRUNO João Bruno, que occupava o cargo de carteiro, bom flauta, e chorão do Cattete, discípulo do sempre chorado e inesquecivel Felisberto Marques, tocava todas as musicas dos flautas antigos já por mim descriptos. Era senhor de um bom sopro e de bom mecanismo. Autoridade nas melodias que sabia exprimir com facilidade no seu instrumento. O autor deste livro tinha por elle grande devotamento e muitas vezes accedeu aos seus convites, para chôros, que ainda hoje guardo bem tristonho, na minha reminiscencia. Morreu em uma das ruas do Cattete, tendo seu enterramento sido uma apotheose de saudades. THOMAZINHO Thomazinho, era tambem um [028] flauta conquistado pelos bons acompanhadores, era estafeta – 34 – dos Telegraphos e morava lá pelos suburbios, onde era muito estimado, pelo seu fino trato, e pelo saber que tinha na sua maviosa flauta. Era de côr parda, altura reglar, pernostico, pandego, vivia sempre a brincar com os companheiros como elle, tocadores. Era um grande athleta no jogo de capoeiragem, de uma agilidade sem nome. Nunca companheiro algum por mais esperto que fosse, conseguiu derrubal-o em uma rasteira, ou em qualquer golpe. Tinha adoração pelo que tocava, pois bolia com os nervos de quem o escutava. Morreu a poucos annos. Julgo em consequencia de um grande desgosto que teve. JUCA KALUT Juca Kalut, immensuravel artista, que a minha penna treme ao trazer aqui o nome deste afamado professor. É impossível descrever aqui, o apogeu deste grande mestre, pois a belleza e os sentimentos dos chôros que elle escreveu, com arte e bom gosto que tinha pela musica, muito o elevaram no conceito de outros grandes musicos e professores. Era respeitado. Kalut morava em Jacarépaguá, onde foi sempre sua moradia, deixou uma grande bagagem musical; composições sublimes, cada qual era um mundo de inspirações. Catullo Cearense, Hermes Fonetes, e outros poetas de valor aproveitaram suas composições em que escreveram bellissimos poemas. São de sua lavra as valsas: "Camponezas, Sorrir Dormindo, Irene" e muitas outras bellissimas composições. Kallut era exemplar chefe de familia e amigo dedicado, foi optimo funccionario e aposentou- se no cargo de carteiro de 1ª classe. Adorava seus filhos a quem – 35 – tratava com o maior desvelo educando-os com o maior carinho, apesar de sua difficuldade monetaria, não olhando sacrificios. Morreu a poucos annos. Com a morte de uma sua filha, muito se apaixonou, pois tinha dado uma educação aprimorada, não só nas letras como na musica, pois ja era uma maestrina. [029] Morreu, como tambem seu pae. Ainda hoje o nome de Kallut, é lembrado como lidimo expoente da musica, e tambem pelo seu fino trato, pelo bom gosto de suas composições, e assim deixou um claro bem custoso de preencher, deixando immorredouras saudades que somente a propria morte apagará. GUILHERME CANDIDO DIAS Outro chorão e bom flauta chamou-se em vida Guilherme Candido Dias. Conheci-o e privei muito com elle, fui seu acompanhador, juntamente com o grande violão e cavaquinho Narcizo Gomes Barcellos, que falleceu a poucos annos no cargo de guarda municipal. Poucos bailes se deram na cidade nova que Guilherme, não fosse chamado. Conhecia todas as musicas dos velhos flautas antigos que já dormem tambem o somno eterno. Guilherme foi flauta de seu tempo como poucos. Na sua flauta Guilherme sabia dizer o que sentia e assim tocamos muito nestes chôros na cidade nova e no morro do Pinto. Aposentou-se no cargo de carteiro de 1ª classe, tendo exercido na Succursal da Praça 11 de Junho, e creio por desgosto intimo falleceu logo depois de casado. As suas composições andam ao léo, talvez nas mãos de algum bom flautista a quem dou meus parabens por possuir uma joia primorosa. – 36 – CAMARGO Camargo conheci-o no Ameno Resedá tocando regularmente flauta de 5 chaves. Muito caprichoso, e mesmo bastante intelligente ingressou nas fileiras da Brigada Policial fazendo seus estudos no Conservatorio de Musica, tornando- se alli um alumno intelligente, recebendo assim o seu Diploma de Professor. Pois bem: Camargo foi Regente daquellas bandas chegando a galgar o posto de official. A sua morte foi muito sentida não só da distincta officialidade, musicos e amigos cá de fóra, o que elle tinha as centenas. SOARES "CAIXA DE PHOSPHOROS" Soares "Caixa de phosphoros" como era conhecido foi um primoroso flauta que a muitos annos já deu a alma a Deus. [030] Creio que morava alli pela rua de S. Diogo, onde era muito conhecido. Tocava com alma, não só o chôro que compunha, como todos os de seus companheiros, fazendo o encanto dos lares onde era chamado. Comia bem e regado com a canninha, ou vinho que podia beber-se, pois era barato. Era muito expansivo, e bom amigo. Onde tocava fazia sempre pilherias engraçadas que agradavam bem. MANGUEIRA Mangueira, quem não conheceu ? Dos tocadores antigos bem poucos ! Não sei se ainda é vivo. Mangueira tocava flauta de cinco chaves, mesmo assim sabia dizer o seu segredo pois – 37 – conhecia os chôros de todos os bons flautistas, não só dos antigos, como dos modernos tempos. Mangueira era o typo do bom amigo, e quando tocava com um violão fraco, elle com toda a paciencia ensinava o tom, e suas passagens ficando assim apto para acompanhal-o Se é vivo ou morto não posso dizer. JUCA FLAUTA Juca Flauta, como era conhecido, morava em uma Avenida na rua D. Feliciana, já naquelle tempo bem velho, não era tambem um grande flautista naquelle tempo, porém, tocava os chôros faceis como se fosse: polka, valsa, quadrilha, chotes, mazurka, etc. Juca Flauta foi tambem meu amigo inseparavel no chôro, tocamos sempre juntos, eu como seu acompanhador, e tambem o celebre violão e cavaquinho Mario do Estacio, Juca Mãozinha, Juca Mulatinho, todos estes tocavam violão e cavaquinho, e eram excellentes cantores de modinhas, pois naquelle tempo a graça do baile era quando terminava com bellas modinhas, e as que estavam em moda naquelle tempo, eram "Lá naquelle Gigante de Pedra, Em horas mortas da noite, Perdão Emilia, Os olhos Castanhos são lindos e serenos, Qual fica doido o macaco, lundú. A gentil Carolina era bella" e muitas outras que não me vem a mente pois nellas estes tocadores eram batutas. Destes por mim citados só existe o escriptor, o que levanta ás mãos ao céo por ainda lhe dar esta graça. JUCA GONÇALVES Juca Gonçalves, conhecido por Bita, era irmão do carteiro [031] – 38 – de 1ª classe hoje aposentado Alfredo Luiz de Oliveira Gonçalves, a sua flauta era de 5 chaves, porém, era um primor de gosto quando tocava nos pagodes, pois tinha muito gosto, e alma, pois sabia dizer o que sentia. Morou muitos annos na Ladeira de João Cardos, em companhia de seu irmão. Naquelle bairro elle fez o encanto, allegrando os corações tristes, e tambem, dando occasião a muitos casamentos. Abandonou a musica, visto ter ficado cégo, o que muito o apaixonou. Morreu em casa de seu irmão, em Jacarápaguá, pois além da sua cegueira, ainda foi atacado de uma tuberculose. Acabou os seus dias, estando sepultado no Cemiterio do Pechincha em Jacarépaguá. JOSE' FRAGOSO Maestro no violão, que começou nos chôros, como um dos melhores acompanhadores, e assim como o violão fez progresso, evadindo os salões da aristocracia, tambem razão porque, toca hoje o seu violão por musica, e com grande habilidade, solando musicas classicas de primeira vista. Zezé, como é conhecido no meio dos chorões, é sympathico e querido, em todo meio e muito considerado. JORGE SEIXAS Deste maestro me falta intelligencia para descrever os seus feitos, intelligencia, capacidade quanto a musica e mais. Seixas, toca todos os instrumentos especializando-se no violão. Posso aqui affirmar que no Brasil, bem poucos tocarão violão como Seixas. As suas musicas vem todas da Allemanha, onde faz seu estudo. Toca qualquer musica no seu – 39 – mavioso violão de primeira vista. O autor compoz um tango que deu o nome de "Ingratidão", e levando á sua casa para a endireitar, e desfazer alguns erros, ficou admirado, e de bocca aberta vendo elle trazer o seu lindo violão, e executar aquela musica de primeira vista e com a maior facilidade. Foi Director de Harmonia das Pragas do Egypto, onde elevou aquella sociedade ao conceito publico, com a intelligencia de sua batuta, foi tambem nos ultimos tempos Director de Harmonia do Ameno Resedá, onde glorificou-se com o seu saber, musicista primus-interpares. Jorge é muito di- [032] gno funccionario da Casa da Moeda. JUSTINIANO Era flauta que morava em Nictheroy, e que tocava de ouvido musicas difficeis, que punham em embaraço musicos de primeira nomeada, e que se estasiavam de ouvil-o tocar. O Justiniano, ia todos os dias para o Arsenal, ouvir os ensaios da banda regida pelo inesquecivel Bocó. E gravava no ouvido as melhores musicas, para executar na sua flauta de cinco chaves. Este facto passou-se mais ou menos a cincoenta e tantos anos, inda hoje se fala no apurado ouvido de Justiniano. CAPITÃO BRAGUINHA Conheci-o muito, e com elle privei não só na sua residencia, como tambem em bailes, festas, serenatas e mais. Braguinha morava na rua de Santo Henrique, numa pequena avenida daquella rua. Trabalhava como caixeiro de despachante da Alfandega, andando sempre com os "guandos". – 40 – Era por isto muito procurado pelos seus amigos que elle tinha de toda classe. Então elle com o bom coração que tinha não fazia selecção delles. Andava sempre acompanhado pelo pessoal bom e mau, pois pela sua bondade o exploravam não só pedindo dinheiro, como tambem bebidas, o que elle não se negava, entrando em diversos botequins, e mandando arriar abessa, para satisfação dos beberrões. Braguinha, na falta de um bom flauta, servia ! Apesar de tocar muito mal e de ouvido, conhecendo na sua flauta que era de cinco chaves, uns tres ou quatro chôros, com isto elle julgava-se grande maestro. Nos bailes chepas em que tocava, sabia illudir os convidados, intercalando elles de forma que poucos comprhendiam a malandragem de Braguinha. Era muito engraçado nos bailes que tocava, pois tinha pilherias muito bôas, fazendo hilaridade dos que ouviam. Mesmo o seu porte era engraçado, muito baixinho, magrinho, e a physionomia pequena. Sempre que via o amigo recebia com um ar de riso engraçado. Era de um coração de pomba, pois não fazia mal a ninguem. Serviu em um Batalhão da Guarda Nacional creio, sobre o commando do coronel Salustiano Quintanilha, de tambem saudosa memoria. Pois bem, Braguinha nunca deu parte de um soldado, mesmo na [033] effervescencia da Revolta de 93, onde elle foi um baluarte ao lado do invicto e sempre chorado soldado, Floriano Peixoto. Braguinha, sahia á rua com a escolta, para pegar gente para completar o Batalhão, e voltava como tinha sahido, nunca encontrando pessôa apta para o serviço militar. Porém, leitores, não é porque não encontrasse, e – 41 – sim, pelo seu bom coração, pois a escolta trazia o paisano á sua presença, e ouvindo dos mesmos dizendo-lhe que tinham filhos e mulher para sustentar e outras coisas mais, dispensava. Braguinha ficava logo pensativo baixando a cabeça, e muitas vezes até as lagrimas lhe vinham aos olhos, e então num auge de sentimento dizia: pode retirar-se. E causando muitas vezes a admiração da escolta, Braguinha, foi bom filho e excelente esposo, e como amigo era de uma dedicação sem nome. Morreu a poucos annos, deixando aos seus amigos profunda consternação. ARTHUR VIROU BODE Quem não conhece este eximio flauta? bem poucos! No seu instrumento é de uma agilidade nos dedos admiravel. O seu sopro é mavioso, conhece musica como gente grande, toca mesmo de primeira vista, e com grande maestria. Conheci-o em casa do celeberrimo violão Juca Russo, e fiquei logo seu amigo, pois vi nelle um bom camarada. Eu frequentava a casa de Juca Russo, e fiquei logo seu amigo, pois vi nelle um bom camarada. Eu frequentava a casa de Juca Russo, que é meu compadre. Estavamos sempre juntos, com muitos outros tocadores de nomeada, pois a casa de Juca Russo era frequentada sempre por grande numero de tocadores. O appellido na roda dos tocadores é devido a um chôro feito por Candinho Silva, que dedicou a Arthur, não sabendo qual a razão. O chorão me parece que mora lá para os suburbios, onde faz os attractivos. PEDRO DE ALCANTARA Não tive a felicidade de conhecel-o, mas por informações sei que foi um – 42 – flautista de respeito, conhecia musica a fundo. Em chôros seus, e de outros seus companheiros artistas como elle, era de uma suavidade sublime. Tocava também as musicas classicas com grande maestria, fazia nos chôros que tocava os encantos dos lares. Infelizmente pelo tempo julgo ser morto. [034] PAULO VIEIRA DA COSTA Morou muitos annos na Estrada Velha da Tijuca, com seu pae Juca Mamede, de grande capacidade intellectual. Paulo tambem como seu pae era de uma educação sublime, e até poeta, infelizmente nada publicou, estando talvez as mesmas jogadas ao monturo, sem nada ter-se aproveitado. Além destes predicados era um flautista sublime, tinha muito boas composições suas, que talvez não existam mais nenhuma. Como violão que fui, acompanhei muito este chorão, que infelizmente como tantos outros já dorme o somno eterno. O FRUCTUOSO O Fructuoso era um senhor de idade, que em 1888, residia na rua do Nuncio, em uma casa pouco confortada, porém bem mobiliada. Era elle um solteirão. Na casa do sr. Fructuoso, em que se reuniam naquelle tempo diversos musicistas, em companhia do mesmo, que era um eximio tocador de harmonio, instrumento este que fazia parte do mobiliario acima referido. Foi ahi que o Catullo, imenso poeta, em companhia de Galdino Barreto e Luiz de Souza, fez a canção do Africano, que tantas glorias tem alcançado. Com meu violão, ou cavaquinho o acompanhei por diversas vezes, fazendo o contentamento e alegria de diversos lares. – 43 – CICERO TELLES DE MENEZES Era conhecido na roda dos tocadores como Cicero dos Telegraphos, pois occupava o cargo de Estafeta de 3ª classe. Tambem sabia dizer o que sentia na sua maviosa flauta, pois tinha um sopro encantador. Gostava muito das musicas antigas e novas, tambem tinha algumas composições suas. Conheci-o apesar de poucas vezes que com elle privei, e até assisti o seu casamento, na rua de D. Maria na Piedade, com uma moça filha de um dilecto amigo meu. Cicero teve a infelicidade de gozar pouco a sua lua de mel, pois só durou mez e meio após o seu casamento. Uma tuberculose o victimou. ANTONIO JOAQUIM MARQUES PORTO Era filho de uma distincta familia bahiana. Conheci-o, como [035] soldado do antigo Corpo Militar da Policia da Côrte, apesar de sua grande instrucção, não chegou a galgar posto algum, porque era de um genio estourado, mettia-se em farras, noite e noites perdidas, não se encomodando com ordens nem disciplina. Marques Porto como era conhecido, era jovial, tocava flauta com grande maestria, no violão era sublime, no piano e no orgão era de uma decia de supplantar. Tambem cantava muitas modinhas, umas alegres e outras sentimentaes e com uma voz maviosa de fazer encantar. Com estes dotes muito alegrou aquelles bairros da Estrada Nova e Velha da Tijuca. Conheci-o como soldado destacado em um posto que existia na Estrada Velha da Tijuca, bem encostado – 44 – á Caixa Velha. Marques Porto, em poucos dias familiarizou-se com todas as familias alli residentes, pois era de uma fina educação e trato, com sua flauta sempre em baixo do braço. lá ia elle divertir aquellas familias que muito o estimavam. Bohemio que era e não ligando a sociedade acabou o heroe do chôro, se não me engano, em uma enxerga na Santa Casa de Misericordia. Contava-me elle que sua bonissima mãe mandava-lhe dinheiro para seu regresso á Bahia, porém, com seu espirito bohemio, nunca lá foi, gastando todo em farras e patuscadas. E assim lá se foi para via eterna um heróe, que pelo seu saber e cultura podia hoje seu nome estar esculpido em uma estatua para gloria do porvir. JOÃO SAMPAIO Quem o conheceu pode gloriar-se, pois foi um flauta de peso, conhecia musica de verdade, a flauta nos seus labios dizia o que era bom e maravilhoso, tinha diversos cadernos de chôros. As suas musicas quasi todas foram dos velhos e antigos chorões, como Callado e seus componentes. Tocava qualquer chôro de primeira vista, pois para elle não havia difficuldades. Era muito respeitado na roda dos que o conheciam. Morreu já cansado pelos annos, devido a isto pouco uso fazia da musica, tinha grande zelo pelas mesmas. Ninguem arrancava uma musica qualquer para fóra, só deixava copiar em sua casa sob as suas vistas. Morreu a poucos annos lá pelas [036] bandas da Aldeia Campista, onde deixou immensas saudades. CARLINHOS – 45 – Como divida de gratidão pelo muito que sabe não podemos esquecer este chorão da gemma, que apesar de ainda ser novo na lucta, nada fica devendo aos velhos, pois já nasceu com o dom da musica, pois é primoroso flauta, toca com grande maestria e gosto. Toca tudo dos grandes e sempre lembrados flautas da antiguidade, e os de agora. E' também de uma educação finissima, e tanto assim que em poucos annos galgou todos os cargos de Carteiro onde chegou até o de 1ª classe. Casou-se. Talvez devido a isto retirou-se da lucta. Mesmo assim uma vez ou outra não dá o seu quinhão ao vigario, pois diz o que sente. Carlinhos, mora em Villa Isabel em uma das casas da Companhia de Tecidos. IRINEU PIANINHO Esse flauta encheu de glorias a nossa bella Capital, com seus maviosos preludios, encantando assim os que tiveram a felicidade de ouvil-o, muito apreciava todos os chôros dos antigos, e modernos tocadores já por nós descriptos. Tinha muitas musicas de sua lavra, que eram um primor de bom gosto. Infelizmente só temos duas que são de nome "Os deuses de Maricota", e o "Genio de Maricota e Geny"; e muitas outras. Pianinho foi grande musico e chorão, pertenceu á banda do Corpo de Bombeiros, no tempo do sempre lembrado e chorado Anacleto de Medeiros, maestro de primeira grandeza, brilhante, sem jaça, que infelizmente tambem dorme o somno dos justos, como tambem Pianinho. HENRIQUE DOURADO (HENRIQUINHO) Já tambem dorme, como – 46 – muitos de seus companheiros o somno eterno. Exalto o seu grande genio que foi o Henriquinho, como era conhecido. Tinha o seu grande valor no meio dos tocadores, pois era um flautim adorado, tocava todos os chôros dos antigos flautas o que elle muito adorava, como tambem as composições suas. Foi tambem flauta de verdade. Encantou muitos lares, fez apagar muitas tristezas e senti- [037] mentos, nos corações dos que soffriam, com o seu mavioso sopro. Encantava todos aquelles musicos ou não, que tivesse a sorte de conhecel-o, não só pelos dotes musicaes, com tambem pelo seu fino trato. Morreu muito moço, o que foi um sentimento geral e se assim não fosse, as suas musicas seriam hoje em grande quantidade. PORFIRIO DE SA' Fui um grande admirador da flauta que elle tocava com o maior prazer e alegria, escreveu muitos chôros, e cada qual de arrepiar cabellos. Tendo depois deixado a flauta, dedicando-se ao contrabaixo, por lhe faltar a embocadura, como tambem os annos e molestia que foi adquirindo com o correr dos tempos. Aprendeu a tocar violoncello em pouco tempo. Seus professores admiravam-se da sua inteligencia, e a rapidez com que aprendeu um instrumento tão difficultoso. Pois bem, Porfirio, tornou-se um grande contrabaixista, tocando até em orchestras. Agora vamos aqui trazer nomes de algumas composições suas. Eil-as: "Os meus desejos", "Diamantina" e muitas dezenas de outras que foi – 47 – impossivel adquiril-as. BENEDICTO BAHIA Vamos agora bolir com as fibras de outro immenso folião da flauta que se chama Benedicto Bahia, foi bamba nos segredos da flauta, quasi todo Botafogo conhece-o como chorão de facto, pois quando melodiava na sua flauta naquelles chôros molles que é commum nelle, as mulatas ficavam todas dengosas, dizendo bravo, seu Bahia ! Hoje pelos annos e pezo de familia está um pouco retirado, mas mesmo assim ainda dá a sua pernada. Eram seus acompanhadores o celeberrimo violão Ademar Casaca, morador a muitos annos tambem em Botafogo, violão primoroso, sola e acompanha com grande maestria. Hoje toca trombone por musica o que conhece com theoria e rythmo. Hoje já um pouco alquebrado pelos annos, só lecciona, não só violão como piano ou qualquer instrumento. Era tambem acompanhador de Bahia o immenso cavaquinho que foi João Soares de saudosa memoria, João Soares de grande bagagem de musicas por elle feitas e que deve ter algumas o nosso estimado Bahia. [038] JOÃO PINHEIRO De saudosa memoria, a sua morte veio abrir um grande claro no exercito dos tocadores, pois elle era bom em tudo, muito amoroso, delicado, de uma educação finissima, conheci-o logo que ingressou na Côrte de Appellação como funccionario de pequena categoria, com seu exemplar comportamento, de dedicação ao trabalho, galgou em pouco tempo, bem alto cargo naquella Repartição. Na sua flauta, era maravilhoso ouvir-lhe tocar, não só os chôros dos – 48 – grandes mestres mortos e vivos, como tambem as bellas composições suas. Não recusava a convite de seus amigos, pois achava-se sempre prompto para a lucta, sem pestanejar. Nos bailes e festas em que ia tocar, fazia logo camaradagem, tornando-se muitas vezes intimo da familia, pois o seu tratamento era finissimo. Morre a pouco tempo na invicta Nictheroy, em uma casa de sua propriedade e lá foi dado á sepultura o seu corpo. Em vida tanta alegria deu ao povo daquella cidade, como o daqui da Capital Federal. LEITE ALVES Quem não o conheceu ? Só quem não foi musico daquelles tempos pois era um primoroso flauta daquelle tempo a uns cincoenta annos mais ou menos, era um primor ouvil-o tocar. Tinha garbo no que tocava, pois conhecia todos os chôros de seus collegas antigos e modernos. Conheci-o desempregado, privei muito com elle, conheci em um baile, na rua D. Feliciana, ficamos muito amigos, dahi em diante todos os pagodes que elle, ou eu tinha, tocavamos sempre juntos, eu de violão ou cavaquinho, faziam-nos o regallo destes bailes, que naquelle tempo de tudo barato existia a milhares, pois não havia lar que fazendo um baptizado, anniversario, casamento, etc., que não désse um baile, puxado ao leitão, ao peru', gallinhas, muitas bebidas, como sejam cervejas, vinhos, licores, etc. De fórma que os chorões daquella época não passavam necessidades, comendo bem, e bebendo melhor. Como acima disse Leite Alves desempregado, me falou um dia na sua necessidade, e que precisava arranjar uma colocação, e que eu talvez lhe pudesse remediar este mal, pois sabia que – 49 – [039] dispunha de elementos para tal. Então lhe respondi que ia fazer todos os esforços para sua collocação. Sendo eu muito amigo e collega de Maximiano Martins conhecido pelo appellido Seu Velho, a elle me dirigi contando toda a historia de Leite Alves, o que Seu Velho me respondeu: que sendo muito amigo, como eu tambem o era, do capitão Sebastião, que exercia o cargo de Continuo na Camara dos Deputados, que iria pedir a elle. Pois bem, foi tiro e quéda. Sebastião apeser de continuo exercia uma grande influencia na Camara, entre os Deputados e especializando nesta amizade a do dr. Herculando de Freitas, deputado pelo Estado de São Paulo, e de grande influencia politica, pois bem foi nomeado Leite Alves para servente do Thesouro e lá trabalhou pouco tempo abandonando o logar, para dedicar-se á musica, pois era seu fraco, e assim foi reger uma banda julgo em Minas Geraes, onde lá falleceu, tendo deixado grandes saudades, e aberto um claro na avalanche dos chorões que muito tristonhos ficaram com a morte deste heróe, que tão bem sabia dizer, as musicas deliciosas dos companheiros antigos e modernos daquella época. PORTO CASCATA Qual o chorão da Velha Guarda, que o não conheceu ? Bem poucos ou nenhum. Podiase considerar um maestro, conhecia musica a fundo, não só o classico, como os grandes chôros especializando Callado, Viriato, Rangel e outros de celebridade naquella época. Não sei se tinha composições suas, o que acho que sim. Era de finissimo trato, de uma educação aprimorada. Qualquer pessôa – 50 – que com elle privasse, ficava logo cativo pelo seu elevado trato. A poucos annos era Agente do Correio de Engenho Novo, onde prestou por muitos annos grandes serviços na mesma, sendo muito considerado pelo publico daquelle lugar. A muito não o vejo, nem noticia tenho, não sabendo se será vivo ou não e assim fica mais ou menos descripto a vida não só como um chorão eminente, como tambem publica. GREGORIO COUTO Chorão de respeito, e estimado. Na sua adoravel flauta sabia dizer o que sentia, fazendo [040] nella alegria e tristeza, pois tinha musicas para ambos sentimentos. Era bom e distincto amigo. Os que com elle privassem ficavam logo á primeira vista encantados não só pelo seu trato, e mesmo com o seu bello tratamento, julgo que pelos annos que já se vão que já não existe e assim mais ou menos ahi fica a vida deste grande musico. ALBERTO MARTINS Alberto Martins, é Carteiro dos Correios, tem exercicio na Agencia de Copacabana, conhece bem a sua flauta, e toca tambem saxophone. Em qualquer destes dois instrumentos ninguem lhe passa a perna, pois os executa com a maior perfeição. Estudou bem a musica e por isto não teme a qualquer adversario. No chôro em que ás vezes toca encanta com a sua melodia, dando o maior prazer aos circunstantes. Conhece todos os chôros dos seus collegas musicos como elle antigos e modernos. Tambem tem bôas composições suas, que faz o encanto de o escutar, o que elle – 51 – tem grande prazer, pois sabe fazer sentir. E' moço ainda, e flauta moderno, mas mesmo assim não inveja os antigos. JOÃO HILARIO XAVIER 1° official dos Correios, começou como Carteiro, que pelo seu saber, intelligencia e actividade galgou todos os postos até chegar á posição de official, posto que foi aposentado. Xavier era simples, e não fazia distincção de seus subordinados, despido de preconceitos, razão esta que se tornava querido e admirado de seus subalternos. Quando armava sua flauta de prata de novo systema, no meio dos cavaquinhos e violões, se esquecia de tudo e dizia na sua flauta em magnificas expressões, esquecia as maguas, e expandia as alegrias de seu coração. LOURO Quen não conheceu, ou conhece o bom Louro, clarinete de primeira linha ? O autor deste livro teve a felicidade de tocar com o heróe, acima descripto, e sabe dar o seu verdadeiro valor. Louro em um baile, encantava a todos com seu mavioso instrumento. Acompanhei-o algumas vezes com meu violão e cavaquinho, e sei o quanto precisam cavar nas [041] cordas e nos dedos para não fazer um feio (isto é cahir) como se chama na gyria aquelles que erra. A muito que não o vejo, não sei se será vivo, o que faço votos que sim. AURELIO CAVALCANTI Chorão de nome, me sendo impossivel descrever os grandes feitos deste immenso artista musical. No teclado de um piano era – 52 – primoroso, não existia naquelle tempo, quem o imitasse, era de um verdadeiro hymno de amor. Aurelio foi excelente musico. As suas composições ahi estão que são um primor de belleza. Era bom chefe de familia e bom amigo. A sua morte ainda hoje é pranteada. O grande escriptor Coelho Netto, antes de sua morte escreveu com grande nitidez a vida deste grande chorão. Paz á sua alma. CHIROL Outro grande chorão no piano, de seu tempo. Fez os encantos de muitos lares com as suas bellas harmonias, pois sabia dizer o que sentia neste mavioso instrumento. Mesmo depois de velho, e alquebrado, em bailes e festas estava sempre alegre, fazendo bôas pilherias e ditos gostosos, fazendo assim risos aos convidados. Morreu ha poucos annos deixando muitas saudades e lembranças. AZEREDO PINTO E' um dos chorões da pontinha. Os seus dedos em um teclado, é como a electricidade. Para este chorão, não ha difficuldades na musica, pois toca tudo o que apparece, com o maior sentimento, e bom gosto e facilidade. Feliz daquelle como o escriptor que privou com este chorão pois fica logo encantado com a sua fina educação, e cavalheirismo. Azeredo costuma dar em sua vivenda nos suburbios onde mora bellas sumptuosas festas, e alli todos são tratados por elle, e sua Exma. Familia de uma maneira impossivel de descrever-se, tal o tratamento com que todos são recebidos, em sua casa. Aqui peço desculpa a este chorão em trazer seu nome, pois conheço a sua modestia. – 53 – CHICO PORTO OU RUANO Nas ruas desta Capital não havia quem não o conhecesse. [042] No Largo de S. Francisco onde fazia sua parada, esperando um circumstante para chamal-o para tocar, o que elle ficava satisfeito, pois sabia que naquella noite elle iria entrar nos bellos pirões. Chico Porto, não se encommodava de não ganhar nada o que elle queria era bôa meza, e bastante bebidas, pois era um copo seguro. Não era lá destes grandes musicos, pois tocava pouco, e de ouvido, porém, como em seus tempos os bons tocadores eram poucos, Porto, sabia fazer afita, satisfazendo a todos convidados, reptindo sempre a mesma musica e assim ia ganhando fama como grande pianista. Porto já no fim de sua vida tinha deixado de tocar com o apparecimento desta mocidade, cheia de vida, tocando admiravelmente, ficando bastante triste, e retirando-se do chôro. Morreu de Grippe Hespanhola, deixando muita saudades como bom amigo que era. CHIQUINHA GONZAGA Maestrina e compositora. Chiquinha Gonzaga, foi uma das primeiras pianistas em todo o Brasil, conhecia o piano por dentro e por fóra. Era de um gosto extraordinario como nenhum ainda appareceu. Chiquinha, era de uma educação finissima, de um tratamento sublime, na sua casa, recebia todos com o maior carinho, sempre risonha e satisfeita. Quando pedia-se para tocar um chôro, não se fazia de rogada, abria o piano e, com os seus dedos habeis e admirados principiava com um chôro – 54 – composto por ella pois são innumeros, e fazia a delicia dos que a escutavam. Tocava tambem o classico, tinha grande predilecção pelas musicas de Carlos Gomes, que ella conhecia com grande proficiencia, tambem adorava as musicas de Verdi, Puccini, Leoncavallo, Paganini e muitos outros grandes musicos. Infelizmente falleceu a pouco tempo deixando grandes saudades aos que a conheciam. Neste livro que só a força de grande vontade pude escrever deixo os meus sentidos pezames e immorredouras saudades, á distincta familia Neves Gonzaga. ARTISTAS DE RADIOS Quanto aos artistas do Radio deixo de mencionar seus nomes pois todos elles pode-se dizer, todos os conhecem os seus feitos que são artistas de hoje, e gloriosos, através deste apparelho que é a admiração do mun- [043] do inteiro. Todos conhecem bem, o quanto merecem não só pelas suas encantadoras vozes, como tambem pelos instrumentos que os acompanham pois que são de uma sublimada impossivel de descrever-se. Não são só os que tocam no Radio daqui, tambem os do grandioso Estado Bandeirante, em que os artistas são sublimissimos não só com as suas suaves vozes como tambem o acompanhamento destes distinctos chorões daquelle hospitaleiro Estado. Aqui dou os meus applausos a todos os cantores dos Radios Brasileiros como tambem o seu conjuncto de musicos que fazem a gloria do Radio, e tambem de seus ouvintes. ERNESTO NAZARETH – 55 – Ernesto Nazareth, espirito superior aprimorada educação, musico de primeira agua, foi brilhante sem jaça, que bem poucos o iguariam no seu saber. As harmonias feitas por elle eram um hymno do céo. Tocou em grandes e nobres salões, onde sabia portar-se como gentleman dotados de familia, onde tocasse fazia logo camaradagem, ficando logo intimo, como se fosse de um conhecimento longo. Tocou em muitas festas, em que tambem se achavam os grandes chorões como elle, que tambem fizeram seus explendores nos bailes desta capital como sejam: J. Christo, Costinha, Chiquinha Gonzaga, já por nós descriptos, Paulino do Sacramento, e todos os outros que não me vem á mente, pois foram em grandes quantidades destes chorões da velha guarda, que infelizmente já não existem. LE'O VIANNA Quem é que não conhece o bom Léo, o distincto amigo que a todos sabe agradar, sempre com os sorriso nos labios ? Léo é filho tambem do grande flautista Alfredo Vianna, já por mim descripto aqui nestas paginas e irmão de Pixinguinha. E' chorão de fama brasileira. Tocou flauta como gente grande, as melodias feitas com a sua flauta encantavam todos que o ouviam. Deixando depois a flauta, dedicou-se ao violão tornandose um batuta não respeitando os seus congeneres. Cavaquinho na sua mão é sôpa, não só acompanha, como sóla as musicas antigas, e modernas admiravelmente. [044] O chôro que ás vezes dá em sua casa, é de arrepiar de tão bom que é. – 56 – O tratamento dado por Léo aos seus convivas, é de ficar captivo. A sua excelentissima esposa é um anjo de bondade e trato, fazendo escravo a todos que com ella privam. Léo, não só é musico de grande prestigio, conhecedor a fundo dos instrumentos que toca, o que sinto com a minha pobreza de intelligencia não possa levar Léo ao seu logar que merece como discipulo de Santa Cecilia a deusa da musica. LUIZ CAXEIRINHO Chorão no pandeiro, morreu e residiu muitos annos na Estação de Piedade. Os "pagodes" em casa de Caxeirinho, tinham brados d'armas ! e tambem em casa de seu vizinho mamede, este já fallecido. Deixar de proclamar que foi este chorão nos seus bellos tempos, era commetter uma grande ingratidão, pois elle, era um chorão naquelle tempo que formava na vanguarda dos foliões. A casa repercutia no meio de todas as celebridades musicaes do passado, pois não havia um só musicista de valor que não rendesse homenagens a este grande astro que ainda hoje resplandece no cerebro daquelles que vivem, recordações cheias de saudades, de horas felizes e cheias de harmonia, pelas notas vibradas pelo pandeiro de Caxeirinho, em seus conjunctos. Já falleceu. BINIGNO LUSTRADO Eximio tocador de violão, conheci-o a cincoenta e tantos annnos, quando elle era companheiro de Voltaire e acompanhadores do grande Callado o maior flauta daquelle tempo. Benigno ainda vive, e toca o seu violão, trabalhando no seu officio de lustrador. Este grande chorão, é digno de todas as homenagens, e – 57 – porque nestas linhas patenteio as suas excellentes qualidades, e o amôr e devotamento que sempre teve e ainda tem pelos seus companheiros de chôro e do seu instrumento, o violão. GILBERTO BOMBARDINO Era chorão de facto, conhecia bem musica, mas se fosse convidado para acompanhar um chôro de ouvido, não dava nada. Era muito pilherico e engraçado. [045] Nos pagodes, onde ia tocar, desde que houvesse parte para ler, com toda a musica sem pestanejar, e ás vezes fazendo até floreados nos intervallos da mesma. Gilberto – em pagodes comia bem, e tambem bebia regular. Gilberto gostava muito que os pagodes em que tocasse fosse até de manhã, pois gostava muito de um chocolate com biscoitos ou pão de ló. Gilberto não precisava se pagar, bastava que tivesse bôa e farta mesa acompanhada com bôas bebidas. Assim findou-se este heróe de gastronomia. Foi morador muitos annos na Tijuca, onde tocava em uma Sociedade Dansante Musical, que existia em uma casa na Estrada Velha da Tijuca, quasi ao chegar á caixa velha. Pela sua bondade e camaradagem, a sua morte deixou muitas saudades a todos que tiveram a felicidade de conhecel-o. SABINO MALAQUIAS DE SIQUEIRA (O BINOCA) Conheci-o muito e com elle privei não só na intimidade, como nos chôros, em que elle era um inveterado. A pessôa de que falamos, era um violão sublime. As cordas nos seus dedos faziam pulsar corações de – 58 – tanta graçã, e as bellas melodias que nelle, parecia que vinha do berço. Cantava bellas modinhas. Uma que eu me lembro era de uma beleza impossivel de descrever-se. E vou tentar lembrar de um dos primeiros versos que é: Meu peito é um jardim Teu coração canteiro Meus olhos regas flôres Eu mesmo sou jardineiro. E esta modinha que elle cantava com muito sentimento, e todos o applaudiam, ás vezes fazia repetir. Binoca, foi carteiro do Correio, foi de uma felicidade medonha, pois aprendendo a tocar trombone tornou-se um musico de primeira agua. O chorão de que falo, com sua inteligencia, aprendeu musica, foi um bellissimo companheiro, sempre prompto, a servir aos seus amigos emprestando nas festas muito brilhantismo com seu instrumento. Já falleceu, e quando se trata de seu nome é sempre com saudades. Na physionomia daquelles que com elle privavam, o nome de Binoca, é escripto com letras de ouro, como chorão de tempera. [046] OLAVO PINHEIRO Trabalha a muitos annos na Portaria da Alfandega, amigo e compadre do grande chorão Luiz Brandão. Nasceu na Engenhoca, pequeno lugarejo de Nictheroy. O seu pae era um distincto advogado, que dava em sua casa chôros agradabilissimos. Indo daqui da Capital, o competente chôro, que eram: Henriquinho, de flautim; Lica, de bombardão; Galdino, de cavaquinho; Feslisberto, de flauta; Espindola, – 59 – e muitos outros e também o chorão Olavo do que tratamos. Este que é um amigo dedicado e sincero, e que sabe acatar, com sua bôa palestra e sympathia, por conhecer, de perto toda a gyria dos chorões. Muito eu quizera dizer, relativamente a esse personagem, porém, tenho que me limitar, attendendo a muitos outros, de que tenho dever de mencionar aqui neste livro. Assim direi: recebe Olavo, nessas toscas linhas, a admiração que a ti devoto. LEONARDO DE MENEZES Era natural da Bahia. Inveterado chorão, conheci-o no Correio e frequentei muito a sua casa, que era na rua da Providencia n. 26, onde se reunia, uma vez por semana Carramona, de pistão; Lica, de bombardão; Salgado, de ophiclide, e muitos violões e cavaquinhos, que faziam a alegria daquella rua. O sempre chorado Leonardo, tinha voz de soprano, e era autoridade nas modinhas bahianas. Era bom collega, e amigo sincero, ainda hoje tenho saudades da peixada que o Leonardo fazia com todo o rigor da Bahia. Aqui pranteio a sua morte. PIMENTA DA ALFANDEGA Veterano de Jacarépaguá, companheiro de Coelho Grey e de outros de sua tempera, com o seu mavioso bombardão. Ultimamente é aposentado da Alfandega, onde prestou relevantes serviços, razão porque, ainda hoje, é consideradissimo pelos seus collegas e superiores hierarchicos. PEDRO ITABORAHY Este distincto chorão, é – 60 – carteiro de 3.ª classe dos Correios e Telegraphos. Quem quizer sentir o palpitar de coração, é ouvir o heróe [047] acima dedilhar o violão. Fazer elogio de Pedro Itaborahy, quasi um impossivel, tal a sua maestria neste instrumento. Os dedos do chorão acima nas cordas do violão, é de uma velocidade, só mesmo vendo. O acompanhamento feito por Itaborahy, não admira, encanta, tal a maneira que elle dedilha o seu violão. Conheço-o muito, e sei o que vale, e elle sabe o quanto o admiro pela sua finissima educação. Não me admira tanto o seu acompanhamento, como invejo a sua proficiencia no solo de que toca com grandes dificuldades. Nos chôros dos bailes, como sejam casamentos, baptizados e mais, Itaborahy, faz admirar a todos, pelo seu fino tratamento. ARTHEMIO Foi uma garganta de ouro. Tinha uma voz maviosa que encantava a qualquer ouvinte. Eu que muito o acompanhei, com meu violão posso dizer de cadeira, o que elle valia, nas suas maviosas modinhas, e lundús, samba, jongo, macumba, que elle conhecia bem. Acompanhar certas modinhas do heróe acima, era preciso treino, pois fóra disto ninguem andava. Era atirado e valente, mas de muito bom trato para seus amigos. Morreu assassinado em uma das ruas desta Capital a alguns annos. JOÃO VALERIANO Feliz daquelles que o conheceram. Valeriano foi um grande ophiclidista. Conhecia musica admiravelmente. Em chôros em que – 61 – acompanhava os grandes flautas, era de admirar, tal agilidade de sôpro e bom gosto que elle tinha na musica. Era muito procurado, não tendo quasi tempo para o descanso. Valeriano, não era só musico para acompanhar, como tambem era um solante de alto valor e saber. Infelizmente hoje já tambem dorme o somno eterno. PAULINO Era Guarda Municipal, oriundo de uma distincta familia. O heróe acima era um chorão de facto. Esquecia de tudo neste mundo quando estava num chôro molle. Agarrava-se ao violão que nunca mais deixava, tal era o seu gosto pelo chôro. Paulino, fazia sempre parte nos chôros com o grande flauta que foi [048] o immenso Quintiliano. Tocava tambem com Paulino, o grande trombonista Bellot, e Ernesto Magalhães, grande violão, e outros, que não me vem á memoria. Era elle um dedicado amigo. Privei muito com este chorão, e até mesmo no seio de sua muito nobre familia, que muito o estimava pelo seu porte, como chefe exemplar, que sempre foi. LUPERCIO MIRANDA E' admiravel o ouvir-se pelo Radio, as suas dedilhações naquelle pequeno por elle, com maestria manejado. Julgo, e quasi sou capaz de apostar que no Brasil inteiro não terá outro igual. Não quero dizer com isto, que não exista quem toque, mas, como Lupercio, não acredito que possa existir ! Lupercio, é como um Cometa que passa de mil em mil annos. Nelle é um dom que trouxe – 62 – de seu ser, ninguem pode igualal-o naquelle pequenino instrumento. No Radio onde o escuto, fico absorto ao ouvil-o, digo para mim, será possivel, haver um genio igual ? Tambem fui chorão, e sei dar o valor aos grandes maestros, como é Lupercio. Daqui destas toscas linhas, acceite Lupercio, um effusivo abraço, e os meus sinceros parabens, por este geio que tu és, e que as gerações vindouras talvez não traga outro. LEAL CARECA Era sapateiro, morava na rua Estacio de Sá, quasi ao chegar ao Largo do mesmo nome. Trabalhava muito em confeccionar botas para montaria, que naquelle tempo era o luxo. Foi chorão como poucos. O seu instrumento era o sempre lembrado ophicleide, que elle manejava com maestria. Leal era amigo e companheiro de Callado, Viriato, Silveira, Luizinho, com quem sempre tocava. Era um musico de respeito, pois acompanhava os flautistas acima com gosto e alma. Conheci-o pessoalmente e apesar de muito criança, apreciei muitas vezes tocar em bailes que se davam constantemente em uma casa alli no Estacio, que era conhecida com o nome de Gelo, por ser fabricado alli este refrigerante, que era de um francez, chamado Bailly, que hoje julgo já não existir mais. Leal Caréca, era um distincto amigo, que encantava a todos que o conheciam. [049] Era um genio nos chôros, pois tinha prazer em supplantar a todos os componentes da musica. Tambem já não existe, só deixando recordações e saudades. – 63 – Paz á sua alma. JOSINO FACÃO Tocava pessimamente o ophicleide, e de ouvido. Os flautas não gostavam de tocar com Josino, pois além de não conhecer musica, era grande trapalhão, pois tocava fóra do tom, sem rythmo, em fim um inferno para todos os conjunctos em bailes, festas e mais. Josino, muito padeceu na mão dos musicos quando descansava seu ophicleide enzinhavrado, amassado em diversas partes, todo amarrado de elastico, pois era costume do heróe virar a campana para cima, e alguns musicos por pilheria, botavam dentro do instrumento, feijão cru', pedaços de ossos dos assados, areia, etc. De maneira quando o flauta dava o sinal, Josino pegava o instrumento sem reparar, e botava a bocca. Oh ! decepção!... O instrumento não dava uma só nota ! O que Josino muito encabulado dizia ao flauta, páre ! páre ! Mas o flauta que já sabia da brincadeira continuava, deixando-o bem atrapalhado ! Josino, soprando daqui, e d'acola, e nada, nem uma nota, então ao muito repara, dava com o defeito, e ficava num desespero horrivel, desafiando os companheiros para brigar, detratando-os emfim, ficava uma féra, jurando que na primeira opportunidade mataria, esfolaria um, emfim fazia o diabo, emquanto os componentes da musica ficavam dado grossas gargalhadas. Então, Josino, botava o instrumento nas costas, e arribava do "pagode" onde todos davam graças a Deus, por ficar livre daquelle "Maestro" !... Josino, muito soffreu com estas brincadeiras. Josino, foi carteiro dos Correios onde trabalhou muitos annos tendo sido exonerado – 64 – creio por abandono de emprego, pois quando mettia-se no chôro esquecia do emprego, da familia e tudo, e assim findou-se um heróe. ALFREDO LEITE Alfredo Leite, que era muito conhecido pelo appellido de Timbó, infelizmente como o heróe acima já é fallecido. [050] A BELLA VIVENDA DE MANOEL VIANNA Fui convidado pelo grande Professor Cupertino, para assistir um conjuncto de chorões lá para as bandas de Agua Santa. Tomando um trem de suburbios, saltei no Engenho de Dentro, onde esperei um omnibus para aquellas bandas. Depois de muito esperar, emfim, chegou o tal omnibus, onde me foi impossivel embarcar, tal o assalto da grande população que alli tambem esperava. Emfim, pacientemente esperei outro, porque no primeiro fui completamente barrado, pisado, e com a roupa toda amassada. Na chegada do segundo, tomei coragem, e consegui entrar, não sem grande custo. E lá fui no tal vehiculo que cahe daqui, cahe para acolá, lá cheguei com os orgãos internos todos soltos de seu competente lugar. Já um pouco distante, já eu ouvia o mavioso som da maravilhosa flauta do Professor Cupertino. Em passos cadenciados, cheguei á casa, que era um verdadeiro Paraizo, onde habitaram nossos primeiros paes. Ao chegar á porteira da casa, visto por Vianna e Cupertino, foi um delyrio ! Vianna todo sorridente veio me receber á porteira dando-me um abraço que ainda sinto o seu contacto. Cupertino recebeu-me sorridente e agradecendo o meu – 65 – comparecimento ao seu convite. Estavam todos tocando em um bello terraço que tem a sua casa. Sentando-me em uma das cadeiras depois de ter cumprimentado a todos, agarrei de unhas e dentes um mavioso violão, que pousava em cima de uma cadeira, e assim fui fazendo um Mi menor com seus acordes, agradando a todos os componentes do conjuncto. Faltava alli um cavaquinho, e tocando eu tambem este instrumento, Vianna trouxe-me um e entregou-me, eu então afinando- o comecei manhosamente a dedilhar contentando mais ou menos a todos. - Então Cupertino disse: Vamos a um chôro ? e collocando a sua maviosa flauta aos labios tocou uma bellissima Polka de Callado, que eu felizmente, apesar dos annos passados, ainda me lembrava. Pois todos os chorões sabem que o cavaquinho é um instrumento que nestes chôros é de uma necessidades de grande valor. [051] E então o Professor Cupertino, desfiou o rosario, tocando Callado, Viriato, Silveira, Luizinho e outros grandes flautas antigos e modernos, que era uma delicia. Lá se encontrava tambem, um grande chorão de violão, que era o Heitor Ribeiro, alto funccionario dos Correios e Telegraphos, agarrado a um maravilhoso violão, tocando com todos os seus accordes, o que me fez ficar babado pelo gosto que sentia. Heitor, é sublime no violão, toca com graça e arte, de fazer admirar, não só acompanha como sola com uma maestria digna de se apreciar. O chorão acima é de uma educação finissima de um trato sem igual. Lá tambem se achava a sua mais que distincta esposa, e a – 66 – sua gentil e encantadora filhinha, como seu pae, de uma educação aprimorada, como tambem a sua mãe. Fazia o centro do conjuncto o Nadinho, chorão no bandolim, de uma agilidade nos seus dedos, impossivel de poder descrever nestas toscas linhas. Nadinho, não só acompanha, como tambem sola admiravelmente, fazendo no seu bandolim, segredos de encantar. Ernesto Cardoso, tambem atracado no seu choroso bandolim sabia fazer a graça naquelle instrumento, me deixando embasbacado não só pela graça de seu acompanhamento, como tambem do seu solo. E assim fiquei familiarizado com todos estes chorões, especializando Vianna, que é um velho amigo de quarenta annos. Vianna é um violão inveterado, toca este instrumento como gente grande, o seu acompanhamento é de uma belleza admiravel, os seus solos facil, e difficultosos, faz a gente esquecer Patria, familia, e tudo mais que Deus, creou no mundo. O tratamento dado por Vianna na sua bella vivenda, não se pode descrever, só mesmo quem assistir, é que póde dar o valor de sua finissima educação, e tambem da sua exma. esposa, e sua distincta filha. Aqui fica a verdade de tudo, e meus agradecimentos a todos os componentes deste bello conjuncto de harmonias. AARÃO Foi chorão de verdade, violão que foi, de uma maviosidade sem nome. O violão na mão deste heróe era de admirar, pois dedilhava com gosto e alma. [052] O seu acompanhamento era mesmo de endoidecer. Solava como poucos, valsas, chotes, mazurkas, para elle era – 67 – sôpa, tal a sua agilidade nos seus dedos. Conheci ainda moço, e muito tocamos em todo o suburbio, onde elle era conhecido, e estimado. Ha muito que não o vejo, julgando tambem já fallecido. AOS LEITORES As reminiscencias, que venho descrevendo relativamente ás personagens, dos antigos batutas dos chôros da velha guarda, os que commungam com os meus sentimentos de apaixonado veterano, e saudoso folião, dos dias que passaram, e não voltam mais, encontrarão erros absurdos nas minhas narrativas, mas o velho Alexandre, não escreveu para ser criticado e sim para relembrar tudo que passou, e que em nossos corações de velhos, ainda vivem !... Leitores perdôem todos os erros, mas façam justiça a este folião, que Deus, conservou para rabiscar estas linhas de recordações e saudades. O VELHO BILHAR O inesquecivel Satyro Bilhar, foi um astro que só apparece de seculo a seculo, que neste planeta foi o pharol, que illuminou a bohemia entre os grandes bohemios onde elle se destacava como um sol que brilha e rebrilha supplantando as tristezas, revivendo as alegrias. O seu desapparecimento deixou um grande vacuo, entre os chorões da velha guarda difficil de ser preenchido tal era a sua verve; a sua intellectualidade, e a sua palavra facil de trocadilhos repentinos e inspirados pela bondade do seu grande coração. Quem não conheceu o Velho Bilhar, amigo inseparavel de Paula Ney ? chefe telegraphista da E. F. C. B. aposentando-se com quarenta annos de serviços sem ter nunca perdido um dia o Bilhar, além de ser um pouco gago sabia dizer com graça, era – 68 – myope de verdade, o Bilhar, era um chorão que tinha primazia entre outros chorões nos accordes, nas harmonias, no mecanismo da dedilhação com que manejava agradavelmente o seu violão. Quando um flauta tocava um chôro elle dizia: "Virgem Maria isso p'ra mim é agua com assucar". O Bilhar tambem conhecia as musicas classicas, e tinha producções suas, como os arpejos d'arpa e Melodias, as [053] posições com que o Bilhar tirava os seus accordes eram tão difficeis que só elle sabia fazer, razão porque apesar de sua grande bohemia, Bilhar, era um chorão conquistado pelos seus amigos e por suas familias. Parece-me estar ouvindo ainda elle dizer: "Tu és uma estrella de primeira grandeza"! (tá doido Ave Maria) o que palpita lá palpita cá; minha familia é minha vida inteira ! e viva São João p'ro anno, tá errado com o velho Bilhar, gosto de ti porque gosto porque meu gosto é gostar, no rio o caudal da vida que tem por margem a descrença, as ondas são anjos que dormem no mar, porque vejo em teus olhos um luzeiro que me guia, eram estes os dictados e as modinhas do repertorio de 40 annos do velho Bilhar, com o seu tradicional pince-nez, pois os grandes chorões ainda não conseguiram imital-o e reconhecem que Bilhar, foi o rei dos accordes. Quando elle acompanhava um chôro, e que tinha uma passagem que lhe agradava elle pedia ao cantante: repete por favor, era um encanto vel-o solar a sua tradicional polka "Tira Poeira", no piano tambem era um chorão, afinal, o velho Bilhar, era uma casa cheia, onde elle estava, as moças o rodeavam, presas pelo seu fino espirito de graças attractivas – 69 – imperadas pelo respeito e delicado trato de que era possuidor. Bilhar foi um chorão que deixou saudades ao pessoal da velha guarda e aos chorões modernos. MANDUCA DE CATUMBY Manduca de Catumby era um chorão celebre de gloriosa tradição, typo idoso, de côr parda, de alta estatura e usava a cabelleira partida ao meio e a tradicional sobre-casaca, trabalhava numa litographia na rua da Assembléa, trazia nos dedos uns aneis de latão com pedras de vidro, e quando dedilhava o violão que era o seu instrumento chamava a attenção dos assistentes pelo brilho das pedras falsas focalizadas pelo reflexo da luz do lampeão. Manduca de Catumby, era um chorão solista e bom acompanhador que pouco se utilizava dos bordões, porém, fazia proezas nas cordas de tripas, sendo por esta razão respeitado e admirado por outros chorões, em bora não tendo elegancia, pois tocava com a cabeça cahida sobre o instrumento, sabia tirar partido nos chô- [054] ros que executava, ainda possuia uma outra especialidade: tocava com gosto e não se tornava rogado aos pedidos que lhe eram solicitados, era calmo, concentrado, modesto, e de expressões delicadas e muito considerado pelo modo, porque se sabia conduzir entre outros chorões, de seu tempo, eis porque digo que Manduca de Catumby, fez a sua época no tempo que os violões não estavam valorizados como hoje se acham. Aqui, nestas linhas, fica descripto o perfil pouco mais ou menos de um chorão da velha guarda. – 70 – GALDINO CAVAQUINHO Mestre dos mestres, que se celebrizou com o seu aprendiz Mario, cujo discipulo venceu naquelle época todas difficuldades do instrumento transformando, a sua tonalidade de quatro cordas para cinco, emquanto isso Galdino, continuava com o seu cavaquinho de quatro cordas tirando infinidades de tons e combinações de acordes que me é aqui difficil de descrever, tal é a magia, e a convicção das notas vibradas pela palheta encantada de Galdino, este grande artista, inegualaval no meio dos chorões, aonde elle foi o unico educador deste instrumento que se chama cavaquinho. JOÃO DA HARMONICA João da Harmonica era de côr preta, conheci-o em 1880 morando á rua de Sant'Anna nos fundos de uma rinha de gallos de briga. Exercia a arte colinaria bom chefe de familia e excelente amigo e grande artista musical, conhecido chorão pela facilidade com que executava as musicas daquelle tempo em sua harmonica, só aquelles que privaram com elle poderão dizer o valor de sua capacidade no manejo deste difficil instrumento, pois acompanhava musicos de nomeada que quando viam elle entrar com sua harmonica ligavam pouca importancia para depois ficarem extasiados e deslumbrados pelos accordes feitos pelo criolo, que com uma ponta de cigarro no canto da bocca tornando-se indefferente aos applausos feitos por estes maestros chorões, continuava victoriosamente o curso proficiente de um artista de valor, por esta razão o seu nome é sempre citado em todas as reuniões dos chorões antigos. Era também grande tocador de violão, compositor de diversas musicas, e que atenho – 71 – no meu archivo algumas dellas. [055] LICA Lica, era typographo, morava na rua Sá, em Piedade, foi um grande bohemio e um grande chorão, bombardão falado e conquistado, fazia gosto vel-o tocar, por esta razão era deveras apreciado pelos amantes dos "chôros" pela sua sympathia, conhecia o seu instrumento de mais, por este motivo executava com muita cadencia, conhecedor de seu mecanismo, dava sempre preferencia em acompanhar flauta, cavaquinho e violão, sendo pelos mesmos acclamado tal era a macieza de seu sôpro e suavidade das notas melodiosas de seu bombardão, houve um tempo em que elle se dedicou á flauta e com este instrumento fez prodigios no meio dos chorões, depois Lica, foi fazer parte da banda de musica do Corpo de Bombeiros debaixo da batuta do prestigioso e inesquecivel maestro Anacleto de medeiros, de quem se tornou um fervoroso amigo. Lica, tinha verdadeiro amor e devotamento á arte musical, nos chôros onde elle fazia parte e dispunha de liberdade, pedia a palavra em louvor sempre de Santa Cecilia, tal era o seu enthusiasmo, tambem tinha muita habilidade nas representações de scenas comicas. Ninguem como o Lica, fazia um anão nos intervallos dos chôros pondo um cesto na cabeça coberto com um panno branco, fazendo uma carranca na barriga, entrava nos salões arrancando applausos da assistencia. Elle ia longe a procura de seus companheiros de "chôro" com um bombardão velho e enzinhavrado cumprindo assim a sua palavra, a chegada de Lica, nos "chôros" á ultima hora tinha radiante recepção, pela anciedade de sua presença, – 72 – Lica, foi um "chorão"inveterado que deixou saudades aos chorões da velha guarda. Tal a macieza de seu sôpro, como contra baixo de cordas. Acompanhando muitas vezes com o seu velho bombardão até modinhas, fazendo nas suas notas um violão. JOSÉ CAVAQUINHO José Rabello da Silva, conhecido na roda dos chorões por (José Cavaquinho) por ter sido o cavaquinho o instrumento de sua iniciativa no circuito da velha guarda, José, nasceu em Guaratinguetá E. de São Paulo, veio para o Rio ainda muito jovem, sempre foi e ainda é muito operoso, conservando uma li- [056] nha irreprehensivel, estimado pela sua sympathia communicativa e attenciosa, propriedade esta que muito se une aos seus dotes de artista e excellente professor que é, autor de diversos methodos de violão, e cavaquinho pae, da menina Ivone, executora de musicas classicas ao violão, applaudida por artistas scientificos que não regateiam seus applausos dispensados a sua filha e discipula. Elle se sente ufano pelo progresso da mesma. José Cavaquinho, é um violonista de folego e escrupuloso em tudo que se prende ao violão, por esta razão ainda não adoptou as cordas de aço conservando as de tripas como uma tradição. José, tambem é um flauta de nomeada e já teve a sua grande época tocando nos cinemas mais frequentados do Rio, elle foi um dos fundadores do Ameno Resedá, como seu director de harmonia, muito cooperou para o seu titulo de Rancho Escola, ao lado de Antenor de Oliveira e Napoleão, director de canto, e – 73 – outros elementos levaram este rancho ao apogeu que teve até a gloria de entrar no palacio do presidente da Republica ! O autor deste livro e toda gente sabe que José Cavaquinho, é o senhor do segredo das harmonias dos cantos carnavalescos que tanto deliciou o povo carioca, o campeão de harmonia Ameno Resedá. Tambem é autor de diversas musicas como sejam: Miragem, valsa; Ypiranga Tango Guanabara, etc. Actualmente é funcionario do M. da Agricultura, e os tempos que lhe sobram da repartição lecciona violão, tendo preparado muitos bons violonistas, pois é elle um grande educador do violão. CATULLO DA PAIXÃO CEARENSE Catullo é o sol que ainda com os seus fulgurantes raios dá vida á modinha brasileira ! pois foi e continúa a ser o trovador acclamado em todo o Brasil, e até no estrangeiro, poeta verdadeiro, uma quadra de Catullo, é um poema, as suas letras musicadas fizeram época, e ainda os cantores modernos adoram as suas canções e todas as vezes que cantam as modinhas do grande mestre, são muito festejados pois fazem nascer nos corações do pessoal da "corôa" as saudades dos tempos passados que não voltam mais, porque tudo que é muito nosso [057] vae desapparecendo pois com o "progresso" não existem mais as musicas melodiosas que arrancavam do grande cerebro do poeta as canções de amôr, e de tristeza que em tempos que já se foram das grandes serenatas nas lindas noites de luar, despertavam quarteirões inteiros para apreciarem os cantores daquella época, que eram – 74 – dotados de voz linda e forte, e o "pinho" em suas mão pareciam ter magia, tal eram as melodias dos accordes que elles arrancavam nos acompanhamentos de suas modinhas. Hoje só imperam as musicas estrangeiras barulhentas e irritantes ou então os sambas e marchas que tem glorificado alguns cantores modernos, emquanto isso Catullo, tem mesmo saudades dos antigos trovadores que interpretavam as suas producções com tanta alma, tanto assim que há muito não apparece uma nova canção de Catullo, o maior trovador esta glorificado e ultimamente tem se dedicado a outro genero escrevendo poemas sertanejos que são uma verdadeira joia da poesia brasileira. Como todo mundo sabe Catullo, remodelou todas as modinhas de autores antigos corrigindo-as dos erros grammaticaes fazendo uma verdadeira recapitulação dando novas feições ás mesmas. Escreveu diversas peças theatraes como seja: "O Marrureiro". Conviveu com os maiores chorões daquelle tempo, como sejam: Anacleto de Medeiros, Souza Pistão, Irineu Batina, Pernambuco, Patricio, Lica, Carramona, Quincas Laranjeira, Néco, Irineu Pianinho, João dos Santos, Mario Cavaquinho, Macario, João Salgado e muitos outros que lhe inspiraram com as suas musicas as letras para as seguintes modinhas: Talento e Formosura, Luar do Sertão, O que amenidade, Vae o meu amôr ao Campo Santo, Martha meu amôr, Não vel-a mais. Catullo e Bilhar era uma dupla respeitada pelos chorões da velha guarda, havia entre ambos uma grande amizade por conseguinte em todo chôro que estava Catullo, estava o Bilhar, o autor destas linhas commungou muitas vezes com Catullo, Bilhar e José Martins, em casa do Ripper de gloriosa memoria, – 75 – o inesgotavel em seus discursos, para se fazer a biographia de Catullo, seriam precioso todas as paginas deste li- [058] vro, começando quando elle, foi mestre de escola e usava sobrecasaca. Catullo, hoje é o Ghandi da modinha brasileira e dos poemas sertanejos. QUINCAS LARANJEIRA Quincas Laranjeira, era bom amigo, eximio violonista, grande artista, modesto e attencioso, de maneiras esplendorosas, por isso tinha em cada collega do chôro um verdadeiro admirador de suas excellentes qualidades. Como funccionario Municipal, era fiel cumpridor de seus deveres, na qualidade de porteiro de hygiene, attendia o publico com presteza e a delicadeza que lhe era peculiar. Aposentou-se no posto de escripturario, era primus interpari no circulo dos grandes chorões de violão, como executor e professor era valorizado, que digam os seus innumeros discipulos que tanto o consideravam pela maneira affavel que dispensava aos seus alumnos, elle, deixou muitas producções. Quincas Larenjeira, sempre teve a sua época e finalmente desappareceu do meio de seus amigos e dos chorões da velha guarda, sem que a nossa imprensa lhe prestasse as honras que merecia, partindo com elle todas as suas illusões de um artista que elevou o seu nome e de seu instrumento o violão, que teve nelle um pedestal de glorias. Quincas foi o continuador de Catullo, nos salões aristocraticos do violão, elevando-o até ao Conservatorio de Musica para depois ser conquistado pela nata social, onde o violão tem primazia manejados por – 76 – tocadores do quilate de Quincas Laranjeira. JOÃO DOS SANTOS João dos Santos pertencia á banda de operarios do Arsenal de Guerra dirigida pelo Boco professor de nomeada que com a sua requinta tirou distincção no meio dos chorões. João dos Santos era nortista, de rosto largo, com signaes de bexigas, baixo, tinha uma perna mais curta do que a outra e um pouco arcadas. Tinha um dos dedos polegar cortado ao meio, não tinha boa pronuncia por isso tornava-se engraçado quando chamava os amigos de "cumpade", "Gardino", "'nós mêmo" e outras phrases identicas. João dos Santos, era um dos clarinetistas mais chorões d'a- [059] quella época onde os bons musicos eram disputados pelos seus valores de bons executores onde este tinha a primazia entre os seus collegas, pois o seu clarinette tinha magestade da melodia da harmonia dos queixumes soluçantes que extasiavam todos os auditoriso e dos chorões musicistas que não lhes negavam os seus applausos. O protagonista desta descripção privou com elle muitas vezes em chôros e ficavamos para o enterro dos ossos como se chamava naquelle tempo a continuação do chôro e das festas, ahi é que se podia apreciar o inesquecivel João dos Santos melodiar em sua clarineta magica enchendo de alegria os seus acompanhadores e assistentes. Elle também dava, em sua residencia no Becco da Batalha n. 3, muitos bons chôros onde reunia-se a flôr dos chorões. Parece-me estar vendo e ouvindo os gemidos da sua clarineta acompanhada por – 77 – violões, cavaquinhos e outros instrumentos que faziam um mundo de harmonia. E assim, na intimidade João dos Santos, em mangas de camisa, com uma toalha de feltro ao pescoço para enxugar o suor que lhes descia em borbotões, fazia tanta coisa com a sua clarinetta que esta, só faltava falar. João dos Santos, foi tambem um dos melhores elementos da orchestra do Ameno Resedá, campeão de harmonia entre os seus congeneres. Eis ahi, pouco mais ou menos quem foi o nosso sempre lembrado João dos Santos. Uma vez elle estava tocado em um chôro, e ás paginas tantas chegou um personagem procurando por um violinista de nome Néco, de quem era irmão, sendo elle, o chefe do chôro foi chamado para entender-se com o recem-chegado a quem com toda attenção mandou entrar fazendo apresentação ao dono da casa na forma do estylo. O apresentado chamava-se Esculapio, e cahiu logo no chôro dando uma grande vida á festa com as marcações de quadrilhas, discursos e afinal foi a alegria da festa, o Néco, não compareceu, e dahi ha dias João dos Santos, descrevia em notas vivas como tinha decorrido o chôro e assim se expressava: "Ah ! seu Néco, o teu irmão Chico Escalope" foi quem fez a festa que correu "as mi maraviás" mais adepois seu cumpadé, chegou um tá de "Carvacante", que escangalhou o pagode todo. [060] ANACLETO DE MEDEIROS Nasceu na ilha de Paquetá e morava na rua da Ajuda com o inesquecivel humorista Moreira da Imprensa Nacional, muito conhecido dos chorões daquelle tempo pela sua verve espiritual. Era o maestro que aproveitava as melodias dos passaros, dos – 78 – apitos das fabricas, das cornetas dos tripeiros, do badalar dos sinos, dos toques das buzinas, dos automoveis, do trinar dos apitos dos guardas-nocturnos, e de tudo que formasse uma nota bôa ou semitonada. Por elle eram todos esses rythmos aproveitados para as suas sublimes composições. Anacleto, foi um grande leccionador de musica, assim como um mestre de muitas bandas particulares deixando muitos discipulos que fizeram honra a seus dotes de professor eximio. Como mestre da Banda do Corpo de Bombeiros elle immortalizou-se, com a sua intelligencia e devotamento, trabalhou corrigindo, modellando e aperfeiçoando, todos os seus comandados com a magia de uma grande vara usada por elle nos ensaios a guisa de batuta que fazia obedecer os seus alumnos. Como maestro ensaiador transformou a Banda do Corpo de Bombeiros em um conjuncto de musicos professores que o respeitavam e o obedeciam, na maior rispidez de suas energias, pois Anacleto, era um director de musica caprichoso e violento. Porém, quando não tinha na mão a batuta era um cordeiro de mansidão. Era uma pomba sem fel e um sincero amigo dos seus subordinados. Privando com elles na maior intimidade no mesmo nivel de igualdade os acompanhando para o chôro onde sobresahia com um inegualavel executor no seu saxofone que era o seu instrumento predilecto. Os chôros organizados por Anacleto faziam falar os mudos e movimentava os paralyticos, desatinava a mocidade e trazia a juventude nos corações dos velhos. As competições musicaes de Anacleto são conquistadas e admiradas por todos os chorões, – 79 – composições estas que deixo de enumeral-as aqui por serem todas ellas conhecidas pelos chorões da velha guarda. UM CHORÃO APOSENTADO O sr. Amaral era um chefe de secção aposentdo da Conta- [061] bilidade de um de nossos Bancos, era exquisito, usava oculos pretos, fronte alva de entradas quasi chegando á calvicie, nariz adunco, de rosto descarnado, queixo redondo de onde sahia a guisa de espanador um cavagnac grisalho, não fazia as suas refeições sem tomar daquella agua que passarinho não bebe, era severo no regimen do mando, autoritario nas suas resoluções. Seu Amaral, era um tigre que fazia tremer de susto com a sua presença o continuo José Pavão, que era um cabra sarado e conhecido em todas as rodas do chôro, razão esta porque elle andava sempre tresnoitado, e quando empunhava o seu violão esquecia-se de todos os seus deveres, eis porque o sr. Amaral sempre o censurava. Ahi vae o reverso da medalha: o sr. Amaral, era em casa de familia um gallo capão governado pela sogra dona Catharina, que farejava a sua roupa e toda a sua papelada, dava-lhe vomitorios, fazia inqueritos constantes para descobrir suas maldades. A esposa do Amaral, dona Bernardina Ramos, era uma velhota de cincoenta e tantos annos, ciumenta de primeira marca, uma martyr soffredora do hysterismo pois dava meia duzia de ataques diarios, não respeitando os domingos nem os dias santificados, calculem pois o leitor, a inferneira que reinava no lar de seu Amaral. Em um dos dias do mez de fevereiro de 1890 a dona Catharina sogra de – 80 – seu Amaral, fez annos e deu um grande "pagode" aonde reuniram-se: Bilhar, Manduca de Catumby, Catullo, Juca Kallut, Néco, Luiz Brandão, Galdino, Cavaquinho, e tambem o José Pavão, ex-continuo de seu Amaral, todos estes personagens eram convidados de dona Catharina, que quando via um bom chôro perdia a cabeça expandindo apaixonadamente as suas alegrias, e foi no auge de uma polka saltitante cheia de passagens e remeleixos, maxixados da autoria de Callado, que entrou pela porta principal o seu Amaral, José Pavão, que acompanhava o chôro encostado a uma janella e a perna em cima de uma cadeira, quando avistou o seu ex-chefe pulou pela janella e cahiu em cima de uma mesa cheia de louças de porcelana reduzindo tudo em cacos !... o auditorio foi surprehendido suppondo que o José Pavão tivesse endoidecido. Dona Catharina, tambem sur- [062] presa pelo acontecimento pediu explicações ao José Pavão, que tremendo de medo escondia o rosto para não ser visto pelo Amaral, e explicou a matrona farrista o temor que lhe causava a presença de seu ex-chefe de repartição por ter sido elle um de seus maiores algozes durante os annos em que trabalhou sobre suas ordens no Banco ! D. Catharina, esqueceu-se do prejuizo da louça e deu uma formidavel gargalhada e dando o braço ao José Pavão, foi ao encontro de seu Amaral, fazendo uma apresentação de seu excontinuo, ordenando que daquella hora em diante respeitasse o sr. José Pavão, como pessôa grata de sua familia, neste momento Bilhar, pede a palavra, e em bello improviso enaltece as qualidades de José Pavão, reduzindo a expressões mais simples a – 81 – hyerarchia do sr. Amaral, debaixo dos applausos de dona Catharina sua sogra, e sua esposa don Bernardina Ramos e de todos que tomavam parte no pagode ! O sr. Amaral humilhado retirou-se e o chôro continuou dois dias !... O MALAGUTA Conheci como Director de Harmonia da Flôr do Abacate, ao lado do grande maestro Romeu Silva, e outros. E depois no Ameno Resedá, tambem, ao lado do grande Romeu. O nosso bom Malaguta foi depois director de um rancho que chegou ao apogeu lá pelos lados de Botafogo, com seu instrumento favorito que nesta época era o clarinete que manejava com grande mecanismo, e divino sôpro. Depois evoluiu de accôrdo com o progresso desta cidade maravilhosa. Hoje elle é um dos grandes executores do saxophone, regendo com maestria Jazz-Band e Tuna Mambembe. Recebeu pois Malaguta do autor deste livro os sinceros applausos. MINHA INFANCIA Ah, minha bella infancia ! onde passei nas brenhas do nosso interior das antigas Provincias do Rio de Janeiro, onde tenho a lembrança dos foliões que cantavam tirando para o Divino Espirito Santo, ainda recorda aos meus ouvidos o rhytmo da cadencia langorosa de suas canções. Em casa de meus paes onde tinham pouso para descanço das suas perigrinações os foliões da bandeira do Divino. Pombos, frangos e fitas adornavam o symbolo da divina ban- [063] – 82 – deira. Ahi vão umas quadrinhas compassadas e rufladas ao rataplan dos tambores, ao tilimtilim dos ferrinhos, entre arrufos de adufes de pandeiros e melodias da rabeca e da viola que gemia dolente sobre a prima e a terceira do tom que trazem aos nossos ouvidos as seguintes quadras: Veja que horas são estas Ainda estamos sem jantar E andamos todos os dias Cantando a peregrinar A visita consagrada Deus do céo que vos mandou Queira nos dar a pousada Jesus lhe paga a favor O Divino pede esmola Mas não é por precisão Só pede para conhecer Os devotos quem são Eu venho villa e villa Em comarca e povoado Trazer a luz do Divino Dando todos o bom agrado ANGELO PINTO Companheiro de saudosa memoria, fraco violão, garganta de ouro, de uma sublime suavidade, que diga aquelles, que como eu, tiveram a felicidade de andar com elle nos chôros. A sua voz encantava, nas modinhas ternas, que elle tinha em seu repertório inesquecível. Era um amigo dilecto do chôro deixando com a sua morte um grande claro entre os trovadores chorões daquelle tempo. Falleceu como carteiro aposentado. LILY S. PAULO Eximia violinista, e musicista, de grande valor. O violão nos dedos de Lily, não toca, chora e diz as maguas que sente. Ella é uma camarada sincera, canta como poucos, sua voz é de uma doçura impossível de descrever-se. Lily, nos – 83 – convites para o chôro não dá para traz, está sempre prompta. E' especialista nos accordes, (pudera não ser) ella, sendo uma companheira de chôro do sempre lembrado Bilhar, que era o rei dos accordes, muito com elle aprendeu, de maneira que, escuta Lily, logo diz alli está o Bilhar. Esta chorona ha muito que não vejo, não sabendo se reformou-se no chôro como quem escreve este livro. [064] AS NOSSAS FESTAS Vem de muito longe as coisas que nos interessam hoje comquanto tenham passado por immensidade de remodelações, ella ainda tem o cunho da antiguidade pois os factos demonstram prosperidade da rustica tradição que calam em nossa alma e em nossos corações as saudades de tudo aquillo que podemos observar e conhecer de perto em nossa infancia. Quem é capaz de ter no esquecimento as festas de fim de anno das épocas remotas que começavam pelo Anno Bom ao romper d'alvorada, que desfraldava a bandeira da esperança de um anno cheio de prosperidade encastellado de projectos de alegria idealizado pelos namorados, finalmente para toda realização dos bons ideaes. As familias se reuniam para festejarem desejando as bôas serenatas, e maviosos chôros em louvor a S. Sylvestre. Também era estylo deste tempo os cartões, as cartas, os telegramas de felicitações de parte das pessôas de relações de amizade que se resentiam quando de serem felicitadas pelas pessôas íntimas. Com o correr dos tempo tudo tem evoluido, tudo tem prosperado supplantando os factos e os costumes da antiguidade. Depois os Reis, festa tradicional da nossa historia em que a estrella – 84 – annunciou e apontou no Oriente o Nascimento do Menino Deus que se chamou Jesus, e que foi o nosso Salvador. O brilho desta estrella illuminou e apontou aos tres Reis Magos que chegaram no dia da Epiphania a vigilia das pastorinhas do advento do anno que começa dahi seguindo para o glorioso dia do Martyr São Sebastião, padroeiro desta Cidade Maravilhosa, dia este, que tinha o esplendor das festas de todos os lares familiares, realizações de casamentos e baptizados, bailes cheios de alegria organizados por chorões que com as suas harmonias deliciavam a grandeza deste dia. Depois o Carnaval com as cinzas precursora da Semana Santa. Nesta data movel que reproduz a tragedia do Calvario a Ascensão do nosso divino Salvador começam então as festas immoveis seguidos do rito catholico que espontaneamente louvam e festejam os dias da tradição idas e probas ephemerides e anniversariantes das familias do Brasil, que se vão, antes mais, do que agora se venera de outra modalidade de ac- [065] côrdo com o Radio e a influencia do tempo e da bolsa do camarada que vive satisfeito com os problemas da vida financeira e economica. O ornamento maior do Carnaval de accôrdo com as fantasias e as chimeras da loucura que impera o rei Momo deus da Folia e da gargalhada na organização dos prestitos allegoricos, dos cortejos dos ranchos, dos blocos, e dos antigos cordões. E musica que inspira, reanima, influe em todos os corações a alegria e o enthusiasmo dos foliões musicistas que no tempo da antiguidade organizavam chôros que iam de villa em villa, de – 85 – cidade em cidade, enfrentando o entrudo da agua, dos limões de cheiro e até dos baldes dagua e das bisnagas de accôrdo com os costumes daquelle tempo. E depois vem o Domingo de Ramos. Ornamentam-se as Igrejas, accendem-se os turybulos que incensam os fieis, que em romaria prestam homenagem ao Filho de Deus. Depois a Paschoa, festival que significa a Redempção Espiritual passagem da Ressureição. Os lares se transbordam de alegria, as festas se prolongam com musica e harmonia em louvor a este dia, um dos maiores da historia. Depois a Conceição festiva com todas as suas tradições de casamentos e baptizados, dia que faz feliz os namorados christões, os innocentes, segundo o Christianismo. Oh ! que reminiscencias que tenho das festas destes dias que já se foram! como o glorioso Natal do Nascimento do Filho de Deus, que espalhou o balsamo consolador pela humanidade soffredora com a divindade do pão e do vinho, da missa do Gallo, que era naquelle tempo o esplendor harmonioso do amor dos corações de todos os devotos. O Natal, é uma festa universal onde a musica Divina enche os corações de alegria. eis aqui em pallidas e cinzeladas palavras a transcripção das grandes festas dos tempos que passaram, festas estas que tinham resplendor e devotamento em cada um chorão da velha guarda, no correr do anno. O CARNE ENSOPADA Seu Gaudencio era empregado como abridor da Alfandega, por motivo que me convem guardar segredo foi demittido e ficou andando por alli na con- [066] – 86 – vivencia dos seus conhecimentos e afinal enconstou-se ao inesquecivel Raymundo, tocador de flauta de cinco chaves, que era tambem servente da Alfandega e morava lá para os lados da Gloria e tinha um Café volante no portão da Alfandega ao lado do Mercado Velho. O seu Gaudencio comia em um frege-mosca que havia em outros tempos na travessa do Rosario, mas quando as coisas lhe corriam bem, elle procurava uma casa de pasto no Largo da Sé de propriedade do Sr. Bernardino que tinha um caixeiro mulatinho chamado Timotheo. Era uma casa especialista em angu' á bahiana mas o seu Gaudencio, dava preferencia á Carne Ensopada. O sr. Bernardino, tinha uma veia poetica e servia a sua freguezia versejando, tinha grande predilecção por Guerra Junqueiro, que por signal tinha o seu retrato em um grande quadro á entrada do seu estabelecimento e de vez em quando recitava um Alexandrino deste saudoso poeta portuguez, e quando via o seu Gaudencio entrar dizia: "bom dia meu camarada", e virando-se para o cosinheiro dizia "tire uma carne ensopada". O seu Gaudencio chegou, e foi logo se misturando com o pessoal do sereno com o olhar activo para descobrir um conhecido que lhe desse um ingresso, e não demorou muito. Elle embarafustou-se pela casa a dentro no momento justamente que estavam formando uma quadrilha, e o nosso camarada não encontrando um par, foi caminhando até á cosinha para arranjar uma dama que era a mulher do dono da casa, e formou em frente á janella que dava para o pessoal do sereno que grita logo: bravo do Carne Ensopada ! E elle virando-se para a dama disse: não faça caso minha senhora, isto é uma canalha, é uma cambada e começou a proferir palavras – 87 – rebarbativas. Ah! começou elle a marcar a quadrilha, e já estava na quinta parte quando gritou: prepara para o grande "granchene", esquerda com esquerda, direita á seus pares; grande promenade; sangê, sangê double, sangê anarriê. Foi ahi que o sereno em pêso bradou: "Ahi seu Carne Ensopada ! Não queiram saber, o homenzinho ficou daquelle geito, e retrucou com palavras obscenas estabelecendo-se uma grande [067] confusão. O seu Gaudencio foi posto do baile para fóra. No momento de sahir não sabia onde tinha botado o chapéu, tal foi a sua precipitação quando entrou, mas depois lembrou-se que tinha posto encima de uma cadeira, onde se tinha sentado uma senhora muito gorda, em cima do chapéu do Carne Ensopada, que ainda mais desatinado ficou dizendo para a dama: Não tinha outro logar para sentar-se, sem ser em cima do meu chapéu sinhá sapaintanha ! O leitor não pode imaginar o sururu' que houve. Quando o seu Gaudencio, sahiu a vaia foi formidavel, e só se ouvia o pessoal do sereno gritar: O Carne Ensopada foi barrado ! Fóra o Carne Ensopada. Depois desta ovação de desagrado, o chôro continuou tornando-se cada vez melhor com a chegada do Bilhar, Maneco, Leal, João Thomaz e Chico Borgs. Eu nunca mais tive noticia do Gaudencio o "Carne Ensopada". S. PAULO Bem poucos existem como elle, é sublime, mavioso, não só nas cordas do seu violão, como tambem como cantador de modinhas, é irmão da grande violinista Lily, e os dois juntos em uma festa faziam os encantos, dava o seu verdadeiro – 88 – valor á mesma. Lily cantava e seu irmão acompanhava, e a vice-versa ficando assim os circumstantes embriagados com tanta suavidade. Aqui nestas linhas eu transcrevo uma homenagem merecida a S. Paulo e á sua irmã Lily. ALMA DE MAÇON O Alma de Maçon trabalhava na Imprensa Nacional. Era um rapaz magrinho, mulato sarará, e que se distinguia no meio dos penetras daquelle tempo. Eu o conheci por intermedio do Ismael Brasil, tocador de trombone e bombardino de saudosa memoria, meu muito digno collega, carteiro do Correio Geral um primoroso chorão que não concluirei este livro sem que faça a sua biographia. Pois bem, vamos ao nosso Alma de Maçon que farejava um chôro como quem num sabbado do meiado do mez corre atraz dos dinheiros para o "Boi com abobora" do domingo. Em uma occasião, foi convidado para um chôro lá para as bandas da Terra Nova, mas como era distante da cida- [068] de teve mêdo de ir sózinho, e por sua alta recreação, convidou um penetra-mór, de sua tempera e ás paginas tantas seguiram elles para o chôro depois de terem bebericado bastante. Quando chegaram, o baile estava molle, em ponto de bala. Foram logo evadindo a sala e cada um tomou a sua dama, e começaram a virar no passo de siry-candeia. O chôro estava destes que faz levantar defunto do caixão. O Alma de Maçon, bradou logo: Guardem distancia senhores que eu quero entrar com meu jogo ! Cruzes meu Deus, até parece que é alma de maçon. Acerta o passo pessoal ! – 89 – Quando terminou a polka chorosa que faz mexer o osso, o convidado do Alma de Maçon, dirigiu-se a um senhor idoso que se achava enconstado a uma janella e todo prosa e risonho disse: Estaes gostando da maxixada ? Dansei agora com um mulatão da ponta da orelha. Nunca pensei que esta meleca estivesse tão bôa. Eu só vim aqui p'ra vadiar com estas morenas. O senhor está vendo aquella mulata velha que está ao lado da pequena com quem eu dansei ? tambem é um pancadão. O senhor com quem elle falava era o dono da casa, a mulata e velha, era a sua senhora, e a pequena com quem elle dansou era sua filha. Neste ponto o dono da casa lhe perguntou: Quem foi que lhe convidou para esta festa ? O malandro respondeu: isto não tem importancia. Oh ! si tem ! faça o favor de me mostrar com quem veio. Neste momento appareceu o Alma de Maçon, que foi apontado pelo malandro por quem tinha sido convidado. Então o dono da casa observou com toda calma: Um convidado convida outro, e o dono da casa bota dois na rua, por isso, tomem os seus chapéus, e vão sahindo antes que páu ronque. Eis a razão que no tempo em que eu andava pelos chôros em logares estranhos, fazia questão fechada de, antes de mais nada ser apresentado ao dono da casa para não acontecer como aconteceu ao Alma de Maçon e ao seu conviva. LUIZ BRANDÃO Chorão de tempera, respeitado na roda, typo alegre, sympatico, e outros attractivos, pois, tinha, e tem ainda, o dom de prender as suas amizades, com o predicado do passarinho cabo- [069] – 90 – rê, que com o seu assovio reune, todos os outros passarinhos. Assim era o Brandão, naquelle tempo. Onde elle estivesse era sempre rodeado pela tropa dos chorões que iam ao seu encontro prestar-lhes homenagens e com elle trocar idéas, ficando por alli até que elle finalizasse o seu serviço, tal era o grão de sympathia que tinham por elle, pois não havia um só dia em que o nosso amigo Brandão, não tivesse um convite para um bom chôro. Assim entrava mez e sahia mez, e elle parecia até um homem encantado, forjado de ferro, para resistir ás noitadas. Não havia que pudesse imital-o, e aquelle que quizesse fazer, tinha que fugir para não dar o prego. Elle tinha um repertorio de modinhas de assombrar que as cantava e acompanhava com gosto, sendo digno de ser apreciado. Nos chôros pela suas verve e maneira agradavel no meio do pessoal elle se distinguia pelo alegria que emprestava a si mesmo, prendendo os auditorios com os gestos e maneira com que acompanhava, sendo por isto muito conquistado pelos seguintes solistas: João de Britto, Geraldo João dos Santos, Felisberto marques, Carlos Espindola, Henriquinho e muitos outros. Dizer qum foi Brandão, no meio dos chorões, torna-se para mim difficil, ta era a sua bagagem de occurrencias agradaveis no meio de seu convivio. Elle constituiu familia muito moço ainda, a sua prole augmentou consideravalmente lhe sobrecarregando de deveres que elle sabia cumprir, pois o Brandão, era grande autoridade nas finanças fazendo até, milagres. Morou uns tempos com o Bilhar, de quem era compadre e amigo incondicional. O autor deste perfil, andou – 91 – muito com elle, porém, teve que desertar na virada pois a corrida deste chorão era de muitas milhas e eu me dei por vencido, facto este, que se deu com muitos outros camaradas. Hoje elle está aposentado,